Tínhamos seis, sete, oito anos (primeira, segunda, terceira classes). Desde o dia em que encontrei o meu espanto dentro dos seus olhos azuis transparentes – no primeiro dia de escola – cada tarde durou toda a infância, adiou trabalhos de casa para “um dia que virá / há muito muito, muito tempo” (“Cuidados Intensivos”, 1994: 48). Tinha um passo alto e leve, a pele branca, uma presença branda, palavras parcas. Na mesma fila de carteiras da sala de aula – a sala azul – com o António aprendi o alfabeto, “a maior das obras literárias” (Manuel António Pina, “Para que serve a literatura infantil?”, 2000: 123). Depois dos passos iniciais – já sem trocar “O Têpluquê” – durante o recreio sonhámos (sem querer) haver “A revolução das letras”: “e depois as letras revoltaram-se as palavras, e depois os livros, e depois as bibliotecas, e depois tudo” (“O Têpluquê”, 1995: 14). O António morava no alto de umas estreitas escadas que nos guardavam na casa do terceiro andar do último prédio da nossa rua; a copa de uma árvore tocava a janela do seu quarto. A casa era antiga; ainda sinto sob os nossos pequenos pés o som do soalho de madeira a moldar-se à nossa passagem. O António tinha ‘legos’ e ambos construímos estações de comboio (a que se chegava sem partir), aviões (com viagem só de regresso), cidades em que era sempre verão (porque gostávamos da promessa de olhar futuros que a palavra nos prometia ver). Calado e ao acaso, uma tarde o António pousou na minha mão um homem-lego (então raro). Na escala maior da infância, com o seu silencioso gesto senti (soube-o dizer anos mais tarde pelas palavras de outro António, Manuel António Pina) que “nós somos os nossos amigos”, que “a amizade é a forma mais alta e mais desprendida do amor” (entrevista à revista LER, Janeiro de 2012: 27). No primeiro dia da quarta classe o lugar do António na carteira da escola estava vazio. Inquietei-me (ele nunca se atrasava); tinha esperado por ele até ao último segundo a tempo da aula, primeiro no fim da nossa rua, depois no largo em que respirávamos fundo depois da subida tão inclinada que nos levava à escola na rua do Jasmim. O intervalo da manhã tão demorado e o lugar ainda vazio, o sobressalto maior: nesses tão demorados minutos no recreio olhei o céu e quis pressentir o regresso de aviões, ouvir o som da chegada de comboios, outra estação; era Outono, estava frio e silêncio. Nessa noite pensei o António com uma gripe e li-lhe (em segredo e em silêncio) uma outra história que gostava ter sido esta: “«As pessoas têm sempre sombras atrás delas, e às vezes à frente delas. As pessoas sozinhas não saberiam o que fazer, nem para onde ir»”, explicava a sombra. “– «Para onde vão as sombras das pessoas, e das coisas, e dos móveis, e dos livros, e de tudo, quando se apaga a luz?»”, interrogava-se o homem a quem a sombra tinha desaparecido. “«– Que tolo, disse ela! Ainda és de facto muito pequeno! Não vão a parte nenhuma!» Explicou-me que as pessoas e os objectos são seres frágeis. Quando o Sol nasce, a luz pega neles e leva-os com ela para o seu feio mundo de paredes e de chãos, onde tudo vive e existe distinto e separado de tudo e onde as coisas não são outras coisas. (...) «– As pessoas e as coisas – disse ela – são seres infelizes, e nós, as sombras, acompanhamo-las porque elas precisam de nós para as guiarmos e as protegermos, levando-as pela mão como se fossem crianças pequenas.» (...) Apaguei a luz e fiquei durante muito tempo a ouvi-la falar, no escuro, dentro de mim. Até que eu e ela adormecemos e dormimos o mesmo sono indistinto e profundo que todo o quarto, a casa, e, lá fora, o grande mundo, dormiam.” (Manuel António Pina, “Histórias que me contaste tu”, 1999: 65-67). Naquele ano o António não regressou à nossa sala de aula. Mudei de escola e ele esteve muito tempo longe de casa (de olhos fechados, eu gostava de pensar que uma sombra o estaria a acompanhar). Passaram dois anos, contados dia a dia a cada passo meu pela nossa rua e a casa vazia. Hoje – com certeza porque “a literatura e o seu inquieto mistério são certamente uma forma privilegiada de viver e de partilhar a própria infância” (Manuel António Pina, “Para que serve a literatura infantil?”, 2000: 123) – leio para o António (como gostaria de poder ler para o Manuel): “Este livro é dedicado a ti, porque foi escrito com histórias que me contaste tu. Mesmo não sabendo nada de ti, senão que, de repente, vindo de sítios misteriosos dentro do meu coração, apareces e me contas histórias, acho que hás-de gostar que eu to tenha dedicado. Eu pego nas histórias que tu me contas e conto-as aos outros, contando sempre, principalmente, a história feliz e inacreditável dos nossos encontros e das nossas conversas. Pode ser, quem sabe?, que os livros cheguem ao lugar onde existe a tua pequenina existência, e pode ser que, se souberes ler, leias um dia este livro. Estão hás-de gostar de saber que não me esqueci de ti e que continuo a ir para o quintal à espera que apareças de novo. Da última vez (estavas muito constipado, lembras-te?) partiste tão depressa que nem tive tempo de te perguntar o teu nome. Como te chamas? Eu chamo-me Manuel.” (Manuel António Pina, “Histórias que me contaste tu”, 1999: 5). para a Inês do Manuel Passou outro ano, contado dia a dia a cada passo meu pela (ainda nossa) rua. Uma tarde, no regresso do liceu, como sempre o meu olhar pousou demorado na copa da árvore que tocava a janela do quarto de António. Era Outono, de novo. A janela estava aberta e o meu coração bateu em sobressalto. Toquei à porta, disse o seu nome (como pergunta feita a medo), perguntei se o poderia ver. A mãe – muito magra, trémula – em silêncio acenou que não, da janela. Estremeci. Um temor de morte. Respirei fundo. “Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde” (Manuel António Pina, 1974). Passaram-se dias, anos, décadas. Hoje, ainda inquieta, tento entender o desconcerto que o António e eu sentimos de cada vez que desalinhámos o caminho quando – durante aquele tão lento ano – nos encontrámos desencontrados na (não mais nossa) rua: nenhuma palavra, nem um olhar, corpos estranhos; o presente já muito tarde, uma perna amputada, o futuro parado: “Um dia, há muitos anos, cruzei-me na rua comigo numa cidade estrangeira. Recordo agora, do lado de fora, esse instante. Eu era muito jovem e julgava então que desejava morrer. Quem em mim se lembra olhou-me alheadamente, passando, e, por qualquer motivo, pareci-lhe familiar. Talvez alguém encontrado um dia, por acaso, em algum lugar da nossa (da minha e da sua) vida, ou talvez algum amigo de infância para sempre perdido (quando a infância era, como uma vez foi, verosímil e única). Eu não me olhei ou, se me olhei, não me reconheci” (“Nenhuma palavra e nenhuma lembrança”, 1999: 41). Não nos reconhecemos; reconhecemos a sombra de cada um de nós separada de nós próprios. Frágeis, fracturados, sós. Sem sombra, sem som, sem sono. Por muitas madrugadas me perguntei que fractura sentia eu. No olhar transparente de António – que não vi – senti uma perda a que eu não soube dar nome; ele sabia a palavra que a nomeava. E calava. “Depois”, devagar, aprendi: “Primeiro sabem-se as respostas. / As perguntas chegam depois, como aves voltando a casa ao fim da tarde / e pousando, uma a uma, no coração / quando o coração já se recolheu de perguntas e de respostas. (...)” (“Nenhuma palavra e nenhuma lembrança”, 1999: 28). Eu intuía ter perdido a infância “verosímil e única” no primeiro instante da ausência de António na escola, na nossa rua. A pergunta chegou depois, como “Forma, só forma”: “Brincarei ainda na infância / lembrando-me agora? / E que recordação / me pensa a esta hora? / O que sou passou pela minha existência (...). E aí repousa já / tornado esquecimento / um dia que virá / há muito muito tempo” (“Cuidados intensivos”, 1994: 48). Por outras tantas madrugadas me perguntei porque não nos olhámos: “Há em todas as coisas uma mais-que-coisa / fitando-nos como se dissesse «Sou eu», / algo que já lá não está ou se perdeu / antes da coisa, e essa perda é que é a coisa” (“As coisas”, “Como se desenha uma casa”, 2011: 20). António sabia: “por onde quer que tenha começado, / pelo corpo ou pelo sentido, / ficou tudo por fazer / o feito e o não feito, / como num sono agitado interrompido.” (“Como se desenha uma casa”, 2011: 31). Aos doze anos António sabia que o seu corpo eram “ruínas”; como “uma casa”, a morte era a sua morada. E calava: “Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras, / nas suas caves, nos seus infindáveis corredores; / pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja, / na ausência das palavras calar-se” (“Como se desenha uma casa”, 2011: 17). Só hoje sinto e sei como apenas o silêncio era possível: “Tudo o que te disser / tudo o que te escrever / sou eu a perder-te, / cada palavra entre / o que em mim é corpo / e é nela sopro” (“Nenhuma palavra e nenhuma lembrança”, 1999: 50). A janela fechou-se no terceiro andar da última casa da nossa rua. Passados dois anos, só a sombra da árvore era par das portadas opacas da janela que eu procurava. Não se ouviu palavra que dissesse a “coisa” (era demasiado cedo e demasiado tarde). Passaram-se décadas, perdas, partidas; perguntamo-nos – em “Passagem” – “Com que palavras ou que lábios / é possível estar assim tão perto do fogo, / e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas, / tão sem peso por cima do pensamento? / Pode bem acontecer que exista tudo e isto também, / e não uma só voz de ninguém. / Onde, porém? Em que lugares reais, / tão perto que as palavras são demais? / Agora que os deuses partiram, / e estamos, se possível, ainda mais sós, / sem forma e vazios, inocentes de nós, / como diremos ainda margens e como diremos rios?” (“Como se desenha uma casa”, 2011: 45). Com que palavras – “E digo ‘palavras’ porque / não sei que coisa chamar / à mudez do mundo” (“Como se desenha uma casa”, 2011: 26) – “ou que lábios / é possível estar assim tão perto do fogo, / e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas, / tão sem peso por cima do pensamento?” Não sei. “Como falaremos com tantas palavras? Com que palavras e sem que palavras? / E, no entanto, é à sua volta / que se articula, balbuciante, / o enigma do mundo. / Não temos mais nada, e com tão pouco / havemos de amar e de ser amados, / e de nos conformar à vida e à morte, / e ao desespero, e à alegria, / havemos de comer e de vestir, / e de saber e de não saber, e até o silêncio, se é possível o silêncio, / havemos de, penosamente, com as nossas palavras construí-lo” (“Poesia reunida – 1974/2001”: 232-233). Eu (que, com catorze anos, emudeci com António) aprendi (“um pouco tarde”) a perguntar com Manuel António Pina “É então isto um livro, este, como dizer, murmúrio, este rosto virado para dentro de alguma coisa escura que ainda não existe que, se uma mão subitamente inocente a toca, se abre desamparadamente como uma boca falando com a nossa voz? É isto um livro, esta espécie de coração (o nosso coração) dizendo ‘eu’ entre nós e nós?” (“Como se desenha uma casa”, 2011: 21).] Em Inês – que conhece a delicada matéria com que se consegue “fazer falar o silêncio” (Inês Fonseca Santos, “A poesia de Manuel António Pina – O encontro do escritor com o seu silêncio”, 2006: 22) – pulsa “esta espécie de coração (o nosso coração)”. Inês – que habita a “casa” de Manuel, morada de “‘eu’ entre nós e nós” – sabe de cor “páginas de silêncio” (Inês Fonseca Santos, “As coisas”, 2012: 7). Na casa de Manuel estão “desenhadas” estas (e tantas outras) palavras de Inês (de “As coisas”, 2012: 48): “As coisas inquebráveis” Não me lembro de outras Que não as palavras.”

Diana Pimentel