Provavelmente achas estranho que me dirija a ti. Condescendente, até, sobretudo tendo em conta que "miúdo" é o que os teus pais chamam a alguém da minha idade. Não te mentem. Continuo a ser um miúdo em tantos e tão relevantes aspectos. Noutros, no entanto, nem por isso. Acredita, miúdo/a, que é difícil sentir-se miúdo a partir do momento em que começas a pagar impostos. Sobretudo aqui e agora. É provável que os teus pais te falem mais nisto do que na minha miudeza. Que estejam confusos, ou até desesperados. Que tenham pensado, como eu pensei, que o Governo começou a governar na terceira dimensão - nem esquerda nem direita, mas para baixo. Que desconfiem, como eu começo a desconfiar, que tudo isto seja geopolítica, e o empréstimo seja um cavalo de Trói(k)a que a ironia tenha atulhado de estrategas alemães em vez de soldados gregos. Que temam, como eu temo por vezes, que a ideia de o futuro ser necessariamente melhor é preconceito de uma idade de ouro ultrapassada. Que temam por ti. Mas não te falo para mostrar como sou semelhante aos teus pais. Falo-te para revelar a importância de seres diferente de mim. Quando tinha a tua idade, não me interessava por política. Queria saber dos meus amigos, dos meus livros, dos meus desportos. A política era para engomadinhos, enfezados, sicofantas, pessoas ambiciosas de uma forma triste. Tinha, claro, uma espécie de consciência política, mas tão particular e inconsequente que me considerar um animal político seria como me considerar piloto só porque tinha carta. Deixei ir. Satirizei quando dei por mim representado por pessoas alheias à diferença entre "Há" e "à"(tu sabes, certo?). Arrogância. Foi por arrogância que passeei a despreocupação por universidades, discotecas, praias, sofás, cinemas, e demais locais de ócio e instrução deste e de outros países, julgando que aqueles sinos não tocavam por mim. Ia aprender um ofício. Gostava da minha liberdade, da minha libertinagem e inconsequência. Piadas sujas, incorrecção política, anarquia mental. Em parte, seria medo - o medo de não estar à altura das minhas ideias. Falhar o teste do fogo, ceder à canção da hipocrisia, não ter numa assembleia a bravata que demonstro no café. De um dia acordar, ser ambicioso de uma maneira triste e chamar-lhe crescer. Era céptico, e o pior do cepticismo é a sua auto-suficiência. A política acaba cheia de sicofantas (espero que já tenhas ido ver o que é) porque as pessoas que não o são se recusam a participar. Eu sei que é um cliché, mas uma das partes boas de pagar impostos é perceber que as verdades costumam ser assim. Intervém miúdo/a. Junta-te a alguém, ou a alguma coisa. Transcende a tua dúvida, a tua crítica. Sê a caravana que passa em vez do cão que ladra. Não o faças por palavras com maiúscula, orgulho pessoal, ou (Deus, não) "sentido de missão". Vai por egoísmo, egoísmo cru e sanguinário. Porque se não fores, se não falares, se não te sacrificares, se deixares passar a injúria, a prepotência, o maniqueísmo, a manipulação e o fanatismo, eles acabam contigo. Pessoalmente. Levam-te o futuro, levam-te a dignidade, levam-te todas as razões pelas quais vale a pena acreditar num Estado, numa Nação e numa pessoa - incluindo tu próprio. Podes pensar que não é muito, que não interessa. Mas é melhor do que eu fiz, do que muitos antes de mim fizeram. É melhor do que aquilo que somos hoje. Vai miúdo/a. Eu ando descrente, mas se fores depressa, apanho-te lá à frente. Onde espero que ainda haja um País.

Pedro Fontes