A divertida canção ‘Os Maridos das Outras’, que as rádios passam hora sim, hora não, foi ao baú das palavras estranhas buscar uma que nos é muito comum, a palavra pináculo, cujo significado não será assim tão claro para muito boa gente. O interprete Miguel Araújo recorda que os maridos das outras é que são bons, são o arquétipo da perfeição, o pináculo da criação. A comparação, que agrada a qualquer marido criticado portas adentro (todos, portanto...) também serve para esta Madeira ‘desquecida e ostracizada’ como diria Herman José nos seus bons tempos. A Madeira também se apresentou ao resto do País e ao pequeno mundo onde pensa que é conhecida, como o pináculo da criação. Aqui era tudo do bom e do melhor. Era. De repente, bem mais rápido do que os mais desconfiados poderiam esperar, descemos o pináculo e estamos no sopé da montanha. Estamos com o orgulho ao nível da água do mar, bem aquém da linha do horizonte que alguns pensavam ter transposto. Da ideia balofa da ‘Sinagapura do Atlântico’, tão pateticamente propalada, resta-nos apenas o Atlântico. Do clima fantástico de tão regular e moderado, passámos para tempestades como a do 20 de Fevereiro, calor intenso no Outono e chuviscos no Verão. De algumas belas montanhas, verdes e luxuriantes, restam agora árvores cinzentas queimadas por fogos sucessivos. Do leque de regiões mais ricas da Europa, tão rica que nem precisava de ajudas, passámos para o rabo da lancha, para a Região mais pobre do País. Da louca agenda inauguracionista de obras públicas feitas ainda mais à louca, passámos para uma ridícula agenda de visitas a obras que já foram vistas duas ou três vezes, sem contar com as obras inauguradas pelo ‘senhor governo’ mas em que o dinheiro foi todo gasto pelo senhor empresário ‘obrigado’ a deixar as honras da festa para o único importante. E mais grave do que o facto de termos perdido alguns importantes patamares de excelência, é o que ganhámos em sentido totalmente inverso. Ou seja, não só perdemos qualidades como ganhámos famas que dispensávamos perfeitamente. Exemplos: as contas escondidas, a democracia à madeirense, o surto de dengue, as dívidas que vamos ter de pagar, o incrível desenvolvimento de drogas legais, os baixos índices de sucesso escolar, o ranking que deixa as nossas escolas no fim da lista, os clubes que não jogam por falta de dinheiro para viagens, a falta de medicamentos, os atrasos nos transportes e manuais escolares e mais e mais e ainda muito mais. Em tudo isto estamos muito à frente do resto dos portugueses. Estamos, a esse nível, de facto, no pináculo da criação. E quem manda há quase 40 anos ainda nos quer empurrar mais para a frente num estreito caminho quase independentista. Mas à frente do pináculo, isso todos sabemos, está o abismo. Já vamos tarde mas só nos resta um caminho: fincar pés no chão, libertarmo-nos da mão que nos empurra e voltar para trás. Já, enquanto é tempo, e pela estrada antiga que a concessão da via rápida está por pagar.