
Na Assembleia Legislativa da Madeira começa, hoje, a segunda sessão legislativa da X Legislatura. Mais um ano parlamentar, naquela a que alguns chamam a 'casa da Democracia' e a quem outros reservam adjectivos muito menos simpáticos. O parlamento regressa de férias, num momento de grave crise social e económica, com uma taxa de desemprego que se aproxima dos 17%, um défice público regional que está nos dois dígitos, falências de empresas, aperto geral para todos os que trabalham e pagam impostos. Um cenário negro, tenebroso, de que não é fácil encontrar paralelo nas últimas décadas. Um filme de terror em que os personagens são os madeirenses e os monstros também são conhecidos.
Um filme que não passa na tal casa da Democracia e da Autonomia, pelo menos para a maioria que lá manda. Para o parlamento, a crise não chegou. Nem para o parlamento, nem para os partidos.
No meio de tanta austeridade, que no próximo ano ainda deve ser muito pior, com cortes de tudo e mais alguma coisa, salários reduzidos, impostos mais altos, corte nos subsídios de desemprego e pensões, falta de dinheiro nas escolas e nos hospitais, a Assembleia vai continuar a gastar mais de cinco milhões de euros só em transferências para os partidos e grupos parlamentares. Mais de um milhão de contos na moeda antiga que um dia destes até pode regressar.
É verdade que uma parte da oposição é contra este 'jackpot' vergonhoso que serve para pagar campanhas eleitorais, sedes e assessores. Regularmente são apresentadas propostas para redução das transferências e, com a mesma periodicidade, a maioria responde com a hipocrisia de sugerir que quem não quer o dinheiro deve abdicar de tudo. Uma proposta desonesta que serve para tentar justificar uma vergonha de todo o tamanho, criada por essa maioria - de deputados e não de votos, nem de madeirenses - que é suportada pelos nossos impostos e legitimada pelo voto de quem parece não ligar a estas coisas.
Também é verdade que não há democracia sem partidos políticos e também é certo que devem ser financiados, para evitar a 'compra' total por interesses económicos privados, mas o que se passa na Madeira é um escândalo. Cinco milhões de 'jackpot' são uma barbaridade que só a total ausência de vergonha na cara pode permitir defender. Uma vergonha que não falta, apenas, ao PSD. Há partidos da oposição, alguns que se apresentam como paladinos da justiça e da defesa dos oprimidos, que são responsáveis por barbaridades que nem a maioria consegue atingir. Partidos que têm o triplo de assessores do que deputados, por exemplo.
Cinco milhões para partidos, quatro milhões para o 'JM', reformas acumuladas com vencimentos de cargos públicos... tudo somado dava para quantos medicamentos, material escolar, papel higiénico nas escolas, refeições, apoio aos desempregados? Não é demagogia, dava mesmo para pagar isso tudo.