Vou entrar na moda e falar do Orçamento de Estado (OE). Parece estranho, mas o contestado calhamaço ainda contempla uns "dinheirinhos" para a área da Cultura, mais concretamente 190,2 milhões de euros, o que, num OE de 70 mil milhões, representa um mosquito (sem dengue, para ser politicamente correcto) no tronco de um elefante. Em época de crise, seria de mau tom pedir mais, para matérias às quais poucos reconhecem mérito - o que só por si justifica o estado a que chegámos, mas enfim. A questão nem está nas verbas. A questão está na utilização que se faz do pouco disponível, problema que não vem de agora, não é exclusivo deste governo, é antes estrutural. Senão, vejamos: o Instituto de Cinema e do Audiovisual receberá a bela "maquia" de 21, 9 milhões. Supõe-se que os cineastas e produtores do regime esteja m plenamente satisfeitos com a verba, que representa mais 93% em relação ao ano anterior. A rapaziada do costume terá as produções do costume apoiadas, o que garantirá emprego aos realizadores do costume, aos actores do costume, aos produtores do costume e aos distribuidores de whisky do costume. Para onde vai o resto do dinheiro? Pois bem, 39,4 milhões para os museus, património e afins. Vinte e seis milhões seguem directamente para os três teatros nacionais, para a Companhia Nacional de Bailado e para a Cinemateca. Para a Direcção-Geral das Artes seguem 18 milhões,. Resumidamente, para não me tornar uma espécie de Vítor Gaspar (até porque não percebo nada de Excel), posso continuar a dissecar colunas do calhamaço - algo que, reconheço, será muito instrutivo para quem estiver impedido de sair de casa por razões médicas e afins - que noto a tendência habitual: a verba destinada, efectivamente, a potenciar a criação, o aparecimento de novos talentos, os projectos pioneiros e, sobretudo, a distribuição e a comunicação/divulgação. Repito: o problema não é deste Governo especificamente. O problema é de todos os governos, há muitas décadas.
Gonçalo Santos