Portugal é muitas vezes apontado como um exemplo de "bom aluno". Penso que a primeira vez que a expressão se tornou popular foi na altura dos governos de Cavaco Silva nos anos 80. A ideia que não nos resta alternativa a não ser cumprir a cartilha é por muitos considerada como a única solução para Portugal. Nesta rábula o professor é a troika, o governo é o bom aluno e nós somos os ratos de laboratório sujeitos às experiências do bom aluno que cumpre com a cartilha do professor e ainda tenta fazer mais para ganhar a sua admiração. Fiz alguma pesquisa para tentar compreender o assunto começando pelo conceito de bom aluno. Encontrei invariavelmente um conjunto de qualidades assustadoras. Um bom aluno é alguém bem comportado, cumpridor que responde da forma que o professor espera e como recompensa obtém boas notas. É uma visão que encaixa bem no paradigma do nosso sistema de educação que resultou da revolução industrial. O bom aluno é alguém que cumpre as regras do jogo, faz os trabalhos de casa, está atento e respeita o professor. Como consequência é bem avaliado, vai para a Universidade tira um curso e consegue um bom emprego para o resto da vida.Como professor confesso que não reconheço nos meus bons alunos quase nenhuma das qualidades anteriores. A verdade é que as coisas mudaram e muitos destes requisitos deixaram de fazer sentido num mundo globalizado onde o futuro é cada vez mais incerto. O nosso modelo de educação, tal como o modelo de bom aluno, está moldado à imagem da revolução industrial, da linha de produção e do modelo de conhecimento enciclopédico clássico. O sistema evolui em ciclos e anos curriculares como se as crianças fossem carros numa linha de montagem com ritmos de aprendizagem alinhados pela idade biológica. Os conhecimentos são estruturados em disciplinas e períodos como se os problemas com que nos deparamos no mundo moderno fossem todos normalizados e tivessem uma resposta única. O modelo de educação da era industrial não nos prepara para os desafios do futuro e quanto mais tempo demorarmos a perceber isso mais difícil será conseguirmos mudar o rumo das coisas. Para que isso fosse possível teríamos que ter mais pessoas com uma visão holística dos problemas, com capacidades de pensamento divergente necessário para encontrar múltiplas soluções criativas para a incerteza e os problemas complexos com que nos defrontamos. Todos temos estas capacidades só que o sistema de educação tradicional acaba por as destruir ao longo do tempo precisamente porque não correspondem ao estereótipo do bom aluno. Os que sobrevivem são normalmente rotulados de excêntricos e muitas vezes são os brilhantes artistas, designers, poetas e empresários que aparecem do nada e conseguem romper com a mediocridade. Esta questão tem sido levantada por muitos dos principais pensadores contemporâneos como Sir Ken Robinson (autor do "Elemento") na defesa de um modelo de educação que promova a criatividade e a inovação como formas de desenvolvimento pessoal e social. O problema do modelo de educação explica em grande parte o dilema que vivemos com a falência da estratégia do bom aluno que Portugal persiste em seguir. Esta crise resulta de um contexto social e económico que advém da globalização e da falência dos modelos tradicionais, sejam de organização do sistemas financeiro, de regulação ou de governo e organização do estado. Todos estes modelos foram desenvolvidos num contexto muito distinto e são liderados por pessoas que são invariavelmente exemplos de bons alunos na definição de excelência académica tradicional. Não admira nada que estejam totalmente alheados da realidade. A questão nem sequer é o bom aluno não apresentar uma solução e resultados, ele simplesmente não compreende o problema e vai continuar a aplicar a mesma fórmula em doses cada vez maiores (ou enormes) tal como sempre lhe ensinaram. Mas o mais grave é que o bom aluno não se sente responsável pelos resultados mas apenas pela aplicação da receita. Mesmo que os resultados sejam desastrosos e tenham consequências muito graves terá sempre a desculpa que seguiu as indicações do professor. Esta reflexão não se aplica apenas ao governo é transversal a toda a sociedade e tem no caso Português importantes agravantes que na minha opinião justificam o estado de coisas a que chegamos. São muitos os casos de gente com influência e poder de decisão, alguns deles modelos académicos, sem qualquer autonomia, criatividade ou sentido de missão e responsabilidade. O país está cheio de pessoas incapazes de analisar a realidade de um ponto de vista diferente e de proporem alternativas e sugestões por muito simples ou rotineiras que sejam as suas tarefas. O país está cheio de pessoas relativamente qualificadas que reclamam por autonomia mas são incapazes de tomar uma decisão de ruptura com o que isso implica de risco e responsabilidade. O país está cheio de pessoas que não se sentem responsáveis por mostrar resultados e que utilizam todas as desculpas ao seu alcance para justificarem a manutenção da mediocridade. O país está cheio de pessoas que acham que ser optimista, ter entusiasmo e motivação para desempenhar uma missão relevante que faça sentido é responsabilidade do chefe ou do governo. Este país está cheio de putativos bons alunos. Nuno Nunes, Professor Universitário Presidente do Madeira-ITI, Carnegie Mellon Portugal
Nuno Nunes