Sempre considerei uma tontice essa coisa de nos juntarmos para protestarmos pelas patifarias que os políticos nos impingem. Não porque devamos ‘comer e calar’ – isso, nunca! -, mas tão somente porque considero uma perfeita incoerência deixar os políticos fazerem o que querem e, só quando já não há nada a fazer, vamos então para a rua gritar ‘slogans’ gastos, muitas vezes sugeridos por outros políticos que fazem do infortúnio dos portugueses o seu ‘modus vivendi’. Ou seja, quando é efectivamente necessário que nos manifestemos, fazemos que não vemos nem ouvimos; nalguns casos até batemos palmas e elogiamos a ‘esperteza’ de um esperto qualquer, que se serve da coisa pública em benefício próprio ou de familiares e amigos. Não, não julguem que este palavreado se refere ao que se passa em Lisboa ou em Trás-os-Montes, onde também se aplicaria. Refiro-me à nossa terreola e às tropelias que aqui se fizeram e se fazem, gerando a monstruosa factura que agora todos temos de pagar em IRS, em combustíveis mais caros, na Saúde e na Educação que deixaram de ser um direito para se transformarem num luxo pago tostão a tostão. Mesmo que alguns não gostem da referência, tenho de diferenciar alguns jornalistas, sobretudo os do DIÁRIO, mas não só, que nunca se coibiram de denunciar estratagemas ruinosos quando eles estavam a ocorrer. Haja memória. Depois da publicação dessas travessuras, invariavelmente ao fim do dia seguinte o que ganhávamos era um comunicado oficial a chamar-nos mentirosos, e outros termos execráveis reforçados nos discursos das inaugurações do dia – naquele tempo havia inaugurações – que eram ruidosamente aplaudidos por uma série de parolos que agora se queixam que estão a pagar transportes e alimentação para os filhos nas escolas, consultas no hospital, IRS a triplicar, combustíveis dos mais caros da Europa. Para os que ainda não ‘acordaram’, aquilo que estão a pagar agora, sem direito a piar, não é a gestão danosa no Continente; são os gastos supérfluos daqui, as obras desnecessárias daqui, os favorecimentos escandalosos da clientela partidária daqui, as megalomanias daqui. Tudo feito aqui debaixo das nossas barbas, a maior parte das vezes com aplausos e consentimentos tácitos. Podem perguntar-me o que poderiam fazer as pessoas comuns perante essas patifarias. Obviamente não ignoro que todas as pessoas têm família, e que todas as famílias têm alguém que depende do emprego na câmara, no governo. Nunca lhes exigiria que se armassem em heróis e heroínas perante a comprovada tirania cega do Poder. Mas sempre houve – e ainda há – formas mais ou menos subtis de não concordar, de não pactuar. De não dizer sim a tudo. Claro que fácil mesmo é ir atrás da manada. Já se deram conta aonde foram bater? É por tudo isto que não posso concordar com manifestações fora de tempo. Muito menos as que, aqui na nossa terreola, são feitas com palavras de ordem contra os de lá. Bem sei que alguns dos políticos de lá também não são flores que se cheirem. Mas com o mal dos outros podemos nós muito bem... Alertados por alguma Comunicação Social, ou simplesmente porque viram e ouviram, muitos madeirenses tinham a obrigação de actuar em tempo útil. Podiam alertar terceiros. Podiam denunciar. Podiam travar algumas das patifarias. Raramente o fizeram. Vão manifestar-se agora? E contra Lisboa?