Manuel Nunes Já estive em cidades onde me recomendaram que tivesse cuidado com os bens pessoais, pois os assaltos aconteciam a cada hora. Já estive em cidades onde as habitações são cercadas por muros altos e com arame farpado no cimo. Já estive em locais onde me disseram para não andar na rua depois de certa hora, pois os gatunos aproveitavam as horas mortas para roubar tudo o que tinha valor e de nada valia resistir. Já andei de metro em horas de ponta em que o mais difícil é chegar ao destino com a carteira no bolso e o relógio no pulso. Foram os lugares onde, até hoje me senti mais seguro. Onde me sinto roubado, assaltado, é no trabalho, em casa, no canto mais hospitaleiro da minha terra, do meu país, em qualquer lugar onde os ladrões de fato e gravata que nos governam consigam chegar. E chegam a todo o lado, de qualquer maneira. Chegam pela televisão, pela rádio, pelos jornais, pela Internet e até pelo boletim do ordenado ao fim de cada mês. E chegam a qualquer hora, em pleno dia de trabalho ou antes de um jogo de futebol que vai ser transmitido em directo na televisão. Chegam de cara destapada, vestidos das melhores marcas e, sem papas na língua dizem logo ao que vêm, ao bolso de cada cidadão, especialmente ao bolso do cidadão que trabalha. Isto é um assalto. Um assalto generalizado e organizado a que ninguém que trabalhe, que tenha um ordenado (ou pense que tem), por mais baixo que seja consegue escapar. Se isentam por um lado cortam pelo outro. Se o ordenado é baixo e não é abrangido por nenhum escalão, muda-se o escalão. Isto é um assalto. Se o cidadão tem uma casa que pelo seu valor patrimonial está isenta de imposto, reavalia-se a casa e lá se vai buscar mais uns trocados. Somos assaltados todos os dias e a todas as horas. Todos podemos constatar isso mesmo nos mais pequenos gestos que fazemos todos os dias. Basta estar atento ao custo do café que tomamos, ao preço de uma refeição, por mais simples que seja e que temos necessidade de fazer fora de casa. Somos assaltados nos preços dos combustíveis que, ora sobem três ora descem um cêntimo, sem que se tenha noticia que a matéria-prima sofreu qualquer agravamento de preço. A semana passada fomos novamente assaltados, aliás, o ladrão veio juntamente com a sua quadrilha anunciar que vamos ser outra vez assaltados. E que desta vez seria para doer, que seria brutal. E ao que parece os assaltados vão ser os do costume, aqueles que trabalham, aqueles que não podem fugir a mais esta carga de cavalaria (de impostos) lançada sobre os peões encurralados, que já não sabem como cumprir com as suas obrigações ao fim de cada mês porque o ordenado, quando chega, já não dá nem para comer.