Eis-nos chegados aqui mais pobres e sem esperança. E agora querem-nos calados, sem fazer perguntas, sem levantar ondas, acríticos. Querem que calemos fundo o que se deve perguntar de viva voz.

Não é apagar a história, o mérito, a obra, é simplesmente exercer aquilo que, um dia, não muito distante, alguém proclamou como o direito à indignação. E temos realmente o direito de estar indignados, o direito a respostas claras. O direito de saber se foi para isto que nos trouxeram até aqui. Se foram para isto as conquistas, as obras, a ilusão.

Porque se foi, temos novamente o direito de questionar que modelo foi este afinal?

Pode ser certo o caminho que criou mais desemprego, mais precariedade, empresas desfeitas, trabalhadores sem salário, desemprego, reformados que não podem comprar medicamentos, utentes sem os já magros reembolsos na saúde, escolas sem o básico, hospitais sem meios, jovens sem horizonte, pais sem forma de sustentar os filhos, emigração?

A ideia que fica é que não se acautelou o futuro e agora apenas nos resta este futuro sem esperança. Não se pensou no dia depois de amanhã e geriu-se tudo na ilusão de que nunca nos seriam pedidas contas ou explicações.

Chegados aqui, pedem-nos silêncio. Pedem em demasia. Estamos todos preocupados e com legitimidade para isso. Olhamos para este novo ano com medo. Ensaiamos os primeiros passos e prever a queda e não o rumo. Cambaleamos nesse futuro que nos interpela sem certezas.

Sim, o dia depois de amanhã é um imenso ponto de interrogação que nos desassossega, que nos traz mais fracos e já derrotados.

E isto não podemos calar, porque voz é ainda o que nos resta chegados ao pior momento de sempre. Como se gritou nas praças da Catalunha e de Espanha, num passado não muito distante: "se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir".