A distância permite-nos olhar para os factos com uma maior imparcialidade e com menos paixão. E isso ajuda ao diagnóstico. A minha ilha tem andado nas "bocas do mundo", nos últimos tempos, pelos piores motivos. Confesso que estou cansado da colossal hipocrisia, de tanta impunidade, da gritante falta de bom senso e de tamanha falta de visão estratégica. Sei que há alguma demagogia política à volta do dossiê "Madeira", mas nada consegue esbater os graves danos que o poder regional de sempre está a infligir ao seu próprio povo. O dinheiro gasto à tripa forra, sem preocupações futuras, originou o atual estado em que se encontra a região autónoma, definitivamente refém da vontade política do continente. A cegueira e a teimosia desses governantes colocou a Madeira de cócoras. Sim, esqueçamos traumas passados. Com os cofres cheios de ar, de promessas vãs e impossíveis de concretizar, todos estão dependentes da generosidade do governo central, social-democrata, como o que governa o arquipélago. Só que o primeiro-ministro do país não pega no telefone para dialogar com a Quinta Vigia. Porque não lhe reconhece credibilidade. A Madeira começa a sentir na carne as diabruras da sua classe politica dominante. Há falta de liquidez, o governo regional não consegue pagar aos fornecedores, nomeadamente às farmácias. Pior, não faz reembolsos de despesas de saúde ao reformado que ganha pouco mais de 200 euros por mês. A carga fiscal vai aumentar exponencialmente e acaba-se o subsídio à insularidade. Que mais poderá acontecer? Qual o futuro que esta classe política dominante tem ainda para oferecer aos seus eleitores? É claro que entende que ainda tem legitimidade (e tem-na, formalmente) para representar os interesses dos madeirenses. Contudo, não a tem, ética e politicamente. Não é uma interlocutora válida junto deste governo central, que, mais que nenhum, a enfrentou, sem os medos da habitual chantagenzinha bacoca. A Região Autónoma da Madeira está a perder-se neste emaranhado balofo que a ainda maioria lhe quer impor. Os seus dirigentes perderam a face e sabem bem isso. Não o querem assumir, mas estão cientes que fora dos seus gabinetes pouco ou nada conta a sua influência junto de Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar, Paulo Portas e companhia. Agora já nem piada acham às famigeradas "graçolas" que costumam chegar com abundância até ao Terreiro do Paço. E, quer queiram ou não, cheira a fim de estação. Ao encerrar de um ciclo e ao desmontar da feira. O limite do bom senso foi ultrapassado e não há remédio que cure um grupo moribundo, alapado a glórias passadas, para reclamar para si um regime vitalício que não faz sentido absolutamente nenhum. Sim, eu sei que houve um ato eleitoral recente. Mas sei também que foram feitas promessas que nunca poderiam ser cumpridas. Apenas se se descobrisse petróleo ao largo do Funchal. E o que fazem os políticos que não cumprem o que prometeram? Atiram com as culpas para o exterior? Diabolizam sociedades secretas, associações várias e grupos instalados, ou agem de acordo com os resultados práticos impostos pelo momento da verdade? Acredite, caro leitor, que me aborrece escrever sobre estas questões, que têm sido escalpelizadas diariamente por um conjunto cada vez maior de protagonistas, da esquerda à direita. Mas é nos momentos de aperto que se veem os grandes líderes. E os grandes lideres colocam o interesse coletivo à frente do seu. Está na hora da Madeira poder respirar um novo ar, ganhar um novo fôlego e se apresentar com "novas vestes" à sociedade. Retiremos os esqueletos do armário e acabe-se de vez com a ideia do homem providencial. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Artigo escrito de acordo com a nova grafia

Roberto Ferreira