Do emaranhado de frases e meias-frases que disse Jardim na entrevista à RTP-Madeira, resulta uma conclusão simplista sobre o modelo de desenvolvimento aplicado na Região nos últimos 20 anos. A 'estratégia' foi criar dívida. E sobre a dívida, acrescentar dívida. Até à exaustão. Foi um fartar vilanagem, encher a mula enquanto se podia. Não interessa se eram precisas tantas obras, se era mesmo necessário tanto alcatrão, tanto cimento. Isso era o menos. O mais importante, foi fazer coisas. Mesmo que algumas dessas coisas de pouco ou nada sirvam e que as tenhamos de pagar na mesma. Nós, os nossos pais, os nossos filhos e os nossos netos. Fernando Pessoa dizia: "Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce". Na Madeira Nova, a teoria anda lá próximo mas com uma importante diferença. Aqui, o processo segue mais ou menos estes passos: 1.º O empreiteiro quer 2.º O povo até gosta e não se importa 3.º O presidente aconselha-se com os que lhe dizem sim no adro da capela 4.º O poder deslumbra-se perante uns rabiscos mostrados sobre o capôt de um jipe 5.º A obra nasce 6.º Alguém a há-de a pagar. Foi assim durante estes anos em muitos casos. Para o bem e para o mal, 'navegação à vista' foi a marca da bússola destes governos no capítulo das obras públicas. Quando o Estado pagava a brincadeira, era um regalo. Quando a Europa mandava rios de dinheiro, era canja. Quando a banca emprestava, já era coisa de engenharias financeiras, mas lá se fazia. Agora facilmente percebemos como é que se fazem políticos de obra feita: à conta de outros. No caso da Madeira, nos últimos anos, foi feito à conta dos empréstimos. Embora a situação não tenha piada nenhuma, faz lembrar aquele anúncio com jogadores de futebol que diz que "a solução estava no banco". E estava mesmo. Sempre que alguém nos apertava os calos, o Governo ia ao banco e resolvia o problema. O que tivemos nos últimos anos foi assim uma espécie de Governo Regional. Até tivemos partidos, campanhas eleitorais, debates parlamentares, orçamentos e outras molduras democráticas. Mas, no fundo, no fundo... temos sido governados por um gestor de conta. Daqueles que nos telefonam a dizer que podemos comprar mais uma casa, outro carro novo, computadores, viagens e até jóias. Perdão: daqueles que nos telefonavam a dizer tudo isso e que são os mesmos que agora nos telefonam a exigir o pagamento das dívidas ou a devolução dos bens! Voltando ao anúncio que mistura desporto e banca, se a solução está no banco, então é melhor o 'mister' pôr outro jogador a aquecer antes que este jogo vá para um angustiante prolongamento.