Alguns anos atrás, a propósito de programação cultural, alguém perguntou (talvez tentando fazer humor) se era assunto relacionado com computadores. Por um lado, parecia-lhe natural que o termo programação decorresse de funcionalidades associadas ao mundo da informática, por outro, parecia-lhe estranho que alguém pudesse programar cultura, até porque a cultura "acontecia". Actualmente esta questão parece estar ultrapassada, quando se fala de equipamentos e serviços com vocação cultural é clara a necessidade de fazer escolhas para criação de valor e animação nesses espaços. As actividades, neste contexto, resultam de escolhas conscientes, responsáveis e relevantes para a comunidade à qual se dirigem, não se tratando de mera ocupação de salas ou exercício de preferências culturais do programador. A meu ver, a crise vem reforçar a importância da programação cultural. Nos novos tempos, mais do que programar um evento e comunicá-lo ao público, importa que espectáculos, exposições e outras manifestações culturais se revistam de interesse para a comunidade, cidade, Região à qual se dirigem. O desenvolvimento das audiências passará menos pelo marketing e mais pela relevância do que é feito, prestando mais atenção ao que se passa à volta, procurando entender os hábitos, preferências e expectativas do público, bem como necessidades e oportunidades na Região onde estão inseridos. Com a crise, as escolhas do público serão cada vez mais selectivas, restringindo-se ao essencial, imperdível, relevante e verdadeiramente inspirador. Se no passado falámos de "democratização da cultura" no sentido em que os produtos culturais foram colocados à disposição de todos, actualmente o conceito tende a evoluir para "democracia cultural" no sentido em que os próprios conteúdos são criados em parceria com os membros da comunidade ao qual se destinam. Não sendo propriamente uma novidade, o envolvimento do público na constituição da oferta será cada vez mais uma prática necessária.

Natércia Xavier, Formadora