Fama, portuguesa e andrajosa rapariga, deambulando nas ruas do esquecimento, enfezada e curvada correndo nas vias alcatroadas pela modernidade ilusória. Vestia, Fama, não um tecido de chita, mas um tecido verde e vermelho roto, esfarrapado e imundo, que arrastava pelo chão à sua passagem. Coitada, ninguém quer a Fama portuguesa, outrora destemida e impetuosa rapariga de Gil Vicente. Dizem os povos de Portugal que toda a gente quer as senhoras famas inglesa, francesa e alemã, mas ninguém quer a portuguesa. Chora muito a menina Fama portuguesa à beira do rio Tejo, recordando os tempos antigos, que já enfadam de tanto rememorar. Chora a menina portuguesa, lamentavelmente, porque ninguém a ama, ninguém a quer e jaz hoje na melancólica lama barrenta. Voltam-se os ares portugueses para o quente Brasil. Coitada da Fama portuguesa, prefere o seu povo as morenas e torneadas brasileiras que as angelicais e tão "ingénuas" portuguesas. Maltrapilha vai Fama pela estrada fora olhando a face de seu povo, uns com fome, outros pobres outros ricos e ousados que preferem as senhoras Fama estrangeiras. Imponentes senhoras Famas, vai a Marselha e a Alemã, brancas que nem a cal, imponentes senhoras vestidas de seda e adornadas com joias e aparência angelical. Atenção… só aparência. Todos querem essas Famas europeias. Vai a Fama sem o toque de Midas e ainda bem que assim o é, porque a ganância torna os homens néscios e pobres de si mesmos. Vai Fama caminhando com pesar, rota e imunda, com as cores desbotadas, cabelos caídos e mãos sujas. Vai Fama viúva do seu povo. Ninguém a quer, ninguém a ama, vai Fama para o Brasil rejuvenescer.
Fernanda Castro, Colaboradora da AAUMa