Existem agora poucas dúvidas que 2012 será o ano em que batemos no fundo a Europa, Portugal e a Madeira. São alturas sempre complicadas, de grande ansiedade e muitas vezes desespero. Existem várias razões para isto. A nível europeu a resposta política para a crise tarda. A Europa confirma que é uma manta de retalhos com pouca solidariedade. A falta de visão e de qualidade dos políticos é gritante. O Reino Unido foi o primeiro a descolar, os nórdicos continuam a achar que isto é um problema dos preguiçosos do sul e os influentes Alemães e Franceses continuam a gozar de alguns benefícios conjunturais. A Alemanha teve recentemente um dos níveis mais baixos de desemprego desde a reunificação. Portanto, pelo menos por enquanto, a crise parece que não está a apanhar todos. Que o diga a Holanda que acaba de acolher várias empresas portuguesas tirando partido da competitividade fiscal a que nos obrigam a abdicar. Enquanto Portugal parece querer abdicar de um instrumento de competitividade fiscal que é o centro internacional de negócios da Madeira, as nossa empresas fogem para regimes fiscais mais apetecíveis precisamente nos países que nos acusam de despesismo. Sem uma política coerente e transnacional será complicado parar esta crise porque haverá sempre alguém a beneficiar do desastre dos outros. Este é o dilema político de uma Europa dividida e concentrada nos benefícios imediatos e nas agendas políticas dos diferentes líderes. Esta não é com certeza a Europa de Charles de Gaulle que dizia: "Faced with crisis, the man of character falls back on himself. He imposes his own stamp of action, takes responsibility for it, makes it his own". Esta dicotomia entre os efeitos de curto e longo prazo é explicada de uma forma magistral no último artigo de Paul Krugman no New York Times intitulado "ninguém compreende a dívida" ("nobody understands debt"). Embora de uma perspectiva americana Krugman alerta para o perigo da analogia entre a dívida soberana e a dívida de uma família. Uma família que se endivide excessivamente tem um problema grave se não conseguir pagar as prestações. Mas os governos soberanos não têm este problema, só têm que garantir que a dívida cresce a um ritmo inferior ao do crescimento económico. Como diz Krugman a dívida da segunda guerra mundial nunca foi paga, foi-se tornando irrelevante à medida que a economia cresceu. Aqui reside uma diferença importante que muitas vezes os políticos num esforço pedagógico irresponsável (para não dizer ignorante) transformam num erro político grave. A dívida é importante e tem que ser controlada, em particular no nosso contexto. Mas neste momento existem coisas mais importantes a começar pelas pessoas, pela sua dignidade que começa na oportunidade de poderem contribuir através do emprego. O que a dívida está a deixar a descoberto em Portugal e por inerência na Madeira é a enorme falta de competitividade da nossa economia. Esse sim é um problema grave que tem que ser resolvido estruturalmente. Nós não nos vamos tornar competitivos através da austeridade, das medidas populistas de cortes nas despesas ou atacando por vezes de forma alarve determinados sectores da nossa sociedade (sejam eles políticos, gestores ou empresários). O embuste to Euro para países como Portugal e a Grécia foi a falsa ideia que podíamos ser parte de uma moeda forte com juros e inflação controladas sem termos uma economia competitiva. O grande problema das nossas empresas e da nossa administração pública é que não são competitivas e isso não se resolve com medidas "cegas" e salomónicas. Quando se cortam os salários ou os impostos de todos por igual, em particular em sectores pouco competitivos como a administração pública, o resultado é que os melhores encontram emprego noutros sítios, os médios ficam desmotivados e os medíocres ficam com uma boa desculpa para fazerem precisamente o que sempre fizeram que é nada. É este o desafio que sugiro para 2012, escolher como sugere De Gaulle o desafio de carácter de tomar a responsabilidade pessoal pela crise. Sem dramas, até por respeito a quem vive verdadeiros dramas pessoais fruto da crise ou não. Com optimismo porque viver com menos não é necessariamente um problema. Pode inclusivamente ser uma oportunidade para recentrar a nossa vida naquilo que é mesmo essencial. Trabalhar com mais empenho e prazer, procurar soluções em vez de reclamar dos problemas, cozinhar em vez de ir ao restaurante, ajudar os que realmente têm necessidade, passear a pé em vez de andar de carro, fazer exercício em vez de pagar o ginásio... há vida para além do centro comercial em que transformarmos a nossa sociedade... Bom Ano de 2012!

Nuno Nunes, Professor Universitário