
Eu não poderia estar mais de acordo com a deputada Rafaela Fernandes, que ontem afirmou que se “afigura pertinente a cessação do apoio financeiro para suportar os gastos com a rede móvel adstrita aos grupos parlamentares e aos partidos com um único deputado”. Há que admitir, também, que foi a primeira vez que ouvi alguém do Grupo Parlamentar do PSD-M a se propor para o maldito corte nas despesas e a falar de coisas que, embora condizentes com o bem colectivo, são preciosidades raras naquelas bocas que agora se vão familiarizando com um corpo lexical estranho formado por palavras horríveis e hediondas por aqueles lados, como “racionalização” ou “optimização” de recursos.
Os deputados da maioria que agora decidem cortar nos gastos com os telemóveis considerando que devem ser “directa e integralmente suportados pelas subvenções atribuídas” nem parecem os mesmos que rejeitaram, a poucos dias antes do Natal, a proposta da bancada do CDS para cortar 30% do famoso ‘jackpot’. Longe estavam os madeirenses de saber que enquanto mastigavam umas sandes de carne vinha d’alhos na Noite do Mercado e compravam fruta e ramagens para compor a mesa e o presépio para a 'festa', que Ventura Garcês acabava de fechar, em Lisboa, um negócio paradoxalmente ruinoso e tão ou mais salvador que o Menino da lapinha, numa romagem que durará mais de 365 dias e no qual entram todos os madeirenses feitos procuradores e fiéis mandatários das dívidas contraídas por um pastorinho de cá do burgo, com o aval do Senhor de Belém. Assinaram uma carta de intenções com medidas tão severas que até afugentaram os reis magos, que desertaram da ilha levando a mirra e o ouro para África, para as ilhas Caimão e para outros paraísos dos tempos modernos, deixando o incenso para o povo curar d' olhado enquanto vai sustentando a austeridade a troco de um crédito urgente, com taxas proibitivas, para pagar (veja-se ao ponto que isto chegou) os salários dos funcionários públicos.
É claro que os deputados do PSD-M não estão dispostos a poupar porque no tempo actual "escasseiam os recursos económicos disponíveis”. Propuseram-se aos cortes de uma das regalias que usufruem porque era imperioso deitar água na fervura e porque estiveram já durante muitos anos a 'levar a água ao seu moinho'. E porque 'águas passadas não movem moinhos’, era preciso emendar a mão que mantinha a classe parlamentar em terra firme, num confortável posto seco, observando o afogamento da plebe numa tempestade fiscal sem precedentes. Enquanto uns não têm altura para fincar o pé em qualquer rochedo entre as fossas atlânticas do buraco financeiro, outros cerram fileiras na tábua de salvação sem deixar afogar as críticas ao governo esbanjador e caloteiro, que promete e falha. O inconformismo começa a perturbar os conformistas acomodados e, já se sabe, "quando os ventos de mudança sopram, uns levantam barreiras, outros constroem moinhos de vento".