Severino Olim Manda a tradição que nestes dias do ano novo se visite em família os muitos presépios erguidos com muita sapiência e arte por toda a ilha, quer no interior das igrejas ou mesmo em espaços centrais das nossas cidades e vilas. Indubitavelmente, é uma prática que nos traz uma frescura de uma força muito agradável, rejuvenescedora e que acaba por completar em grande todo o significado desta quadra natalícia e da festa que deve ser os primeiros dias de cada ano novo. Foi neste intuito que me fiz à estrada dos presépios, nomeadamente pela costa norte da Região onde senti-me tocado pelo empenho e pela dedicação de muita gente anónima, que de um modo muito esforçado espelham com veracidade a secularidade de uma cultura religiosa introduzida nesta ilha pelos padres franciscanos. Encontrei presépios, todos eles arquitectados de um modo diferente uns dos outros, cujos verdes e restantes tonalidades das nossas paisagens se retratam pormenorizadamente sem esquecer as várias actividades de uma madeira rural de outros tempos, em miniatura, patente no presépio da igreja do Porto da Cruz. Há um outro presépio que me merece uma nota de destaque e sem desconsideração para com os restantes, relevo o presépio construído em túneis no palco aberto da igreja da Ribeira Seca. Ali, percorremos dois túneis. O primeiro retrata os ecos dos subterrâneos dos túneis da vida de cada um de nós, percorremos a calçada desgastada pelo tempo dos nossos medos, sentimos a escuridão das nossas angústias, das nossas aflições resultantes da desgovernação do actual estado social afunilado com o desemprego dos jovens, dos casais empurrados para o túnel dos sem trabalho, dos professores, esses agentes por excelência das fontes do conhecimento fundamentais ao processo de alavancagem económica e cultural do nosso País. Logo a seguir, deparo-me com a personagem central do presépio, aquela que na encruzilhada dos nossos túneis faz-nos ver a luz ao fundo, mesmo que seja ténue… Uns passos mais à frente encontro um palco de Homens que se entregaram em vida a nobres causas e que em muito contribuíram pela força das suas convicções para uma sociedade mais justa e global. Entre esses, os mais contemporâneos, destaco pelas suas alvíssaras reveladas na qualidade do seu pensamento, da sua conduta e do seu exemplo Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e Madre Teresa de Calcutá. Aqui sou obrigado a fazer um alto para a interiorização deste banquete do exemplo, servido sem pressas por estas personagens fortemente ligadas a verdadeiras causas natalícias. Em frente abra-se o segundo túnel, pintado de branco, onde já é possível acender a luz do Natal e das ideias que nos levam a desprender dos subterrâneos principalmente os da guerra, da fome, da ignorância e do desanimo. Esta é talvez a mensagem mais construtiva e mais entusiasta que retirei dos presépios que visitei e que contém a força anímica necessária para enfrentar os desafios de 2012.