O ladrar dos cães deu o alerta. Junto à minha porta, uma mulher extremamente magra pedia para falar. Curvada sobre o frio da manhã, as mãos mal protegidas pelo casaco demasiado curto, tentava explicar uma situação que não se explica, que não tem explicação.
Que desculpasse o incómodo, o barulho dos cães, o pedido e tudo o resto. Durante a semana não tinha este problema. Os miúdos vão para a escola, comem por lá. Ela e o marido ficam por casa, desempregados, doentes. Não fazem almoço, pouco comem.
Mas era sábado, os miúdos estavam em casa, quase a acordar, quase a exigir o pão na mesa.
O que faz uma mãe?
Faz-se à estrada, a bater às portas, a enfurecer os cães. Uma mãe faz o que for preciso. Os miúdos estão em casa, a escola está fechada, a mesa está vazia.
Uma mãe enfrenta o frio e os desconhecidos, os cães e o casaco demasiado curto que não cobre as mãos vazias. Uma mãe pede, esconde a vergonha, abre a porta ao que acontece lá em casa entre quatro paredes. Uma mãe faz tudo isto.
Esta mãe bateu à minha porta um dia depois de ser apresentado o plano de resgate à Madeira. E fez-me pensar. Quem a vai resgatar a ela, ao marido sem trabalho, aos miúdos que não vão à escola ao fim-de-semana e que ficam sem nada para comer? Quem resgata uma história destas? Quem resgata a vida real que existe para além do discurso da política?
Será que à mesa das negociações alguém sonha que este pesadelo acontece?