As negociações para viabilizar o empréstimo à Madeira a fim de a Região poder pagar parte da sua dívida tiveram o fim esperado com recuos estratégicos de parte a parte e com a Região a aceitar a final aquilo que antes dizia recusar. Vão longe, na verdade, os tempos em que Jardim impunha as regras do jogo jogando trunfos em que uma parte relevante do universo madeirense não se revia mas que tiveram o mérito de funcionar até agora. É notório, contudo, que Jardim por muito que possa ser sufragado com uma maioria absoluta conforme ainda há poucos meses aconteceu, não tem já o poder de outrora, que levou Cavaco, com a legitimidade que lhe confere o facto de ser o legitimo representante da República, a aceitar em silêncio ser humilhado da forma como o foi. Hoje, perante um Primeiro Ministro que não tem consabidamente o peso nem o prestigio de alguns daqueles que o antecederam no exercício do cargo, Jardim fez ameaças, tentou a chantagem, mas as ameaças já não produzem o efeito de outrora e a chantagem já impressiona os mais desatentos. E acabou por ser constrangido a ter de reconhecer que está "entalado" face ao incumprimento de elevados encargos financeiros que levaram empreiteiros a suspender a execução de obras públicas e as Farmácias a cortarem o crédito aos utentes do Serviço Regional de Saúde. O que era impensável acontecer na Madeira dos melhores tempos do regime jardinista. Que se vai seguir agora? Delenda est Cartagho? Será sempre bom esperar para ver. Com a assinatura deste acordo Jardim ganhou espaço e tempo que nesta altura são dois bens preciosos. O que é em todo o caso substancialmente diferente de ter resolvido um problema. Jardim, tal como muitos outros antes dele o fizeram, não soube ou não quis ler os sinais dos tempos quando era claro que estava a perder peso e espaço de manobra. Não quis dar ouvidos a quem lhe aconselhou a retirada em tempo útil até porque gosta de protagonismo sendo que o seu temperamento voluntarioso o impele a não recuar. Jardim não teve quem lhe recordasse que um recuo estratégico levado a cabo na altura certa pode ser contabilizado como uma vitória. Não foram os ingleses que contaram retiradas como obras primas da estratégia militar, por exemplo? Jardim não deu ouvidos a quem lhe aconselhou prudência e vê-se agora envolvido numa luta de que dificilmente sairá vitorioso. Com a agravante de que ainda mesmo que por estranhos desígnios do destino que se não perspectivam tal pudesse vir a acontecer, nada acrescentaria com isso aos créditos que lhe possam ser reconhecidos. Jardim, com os muitos anos que tem de política activa, não chegou a aprender que existe um tempo certo para sair de cena. Querer permanecer para além dele envolve gravosas consequências e conduz muitas das vezes, na contabilidade do deve e do haver, a que se esqueçam méritos para se evidenciarem defeitos. Jardim não foi apenas betão e cimento armado. Jardim não foi unicamente obra de fachada, não foi só a marina do Lugar de Baixo, não foi apenas o lado desprezível de um sistema - não se lhe poderá chamar regime - em que muitos madeirenses da melhor cepa, residentes dentro e fora de Região, não se revêem. Jardim foi também o homem que com excessos seguramente evitáveis deu a cara por uma Região e deu voz a um discurso redentor que teve o condão de libertar o homem madeirense de anos e anos de cangas e de servidões. Esse mérito - que não outros - tem de ser-lhe creditado!

Carlos Sequeira