António Macedo Causou-me alguma perplexidade a afirmação do Presidente da República relativamente ao valor das suas duas reformas que, quase de certeza, não vão chegar para pagar as despesas correntes (sic). Imagino a dificuldade e a angustia que sentirá para satisfazer um pequeno capricho de algum dos seus netos, ou muitas das solicitações com que diariamente somos confrontados na sociedade de consumo em que vivemos. Não pretendo assumir-me como conselheiro do prof. Cavaco Silva que, à sua volta, tem muitos e concerteza bons, mas seja-me permitida a ousadia de lhe propor algumas sugestões para fazer face a esses problemas. Comece com um telefonema ao prof. Eduardo Catroga. É pessoa para lhe perdoar a conta da electricidade que representará uma parcela importante dos gastos mensais. Faça chegar, discretamente, aos grandes empresários de distribuição as suas dificuldades. Concerteza receberá em casa a alguns cabazes com produtos alimentícios de boa qualidade. Do Dias Loureiro pode contar com umas férias em Cabo Verde "all- included". Não aconselho pedir nada ao Duarte Lima que já tem problemas que chegue, nem ao Oliveira e Costa que também passa por algum aperto. À sua amiga Ferreira Leite, só recorra em último caso e se não estiver em causa algum problema de saúde. Mas, porque não há gratidão na política, e os seus antigos ajudantes poderão já ter esquecido o muito que lhe devem, o melhor mesmo é cortar ainda mais nas despesas correntes, a começar pela alimentação. Evite comer fora. Na sua idade é suficiente uma refeição completa, umas sandes ao longo dia e um copo de leite à noite. Poupe também no vestuário. Na situação em que se encontra ninguém poderá levar a mal que só use dois ou três fatos e três ou quatro gravatas. Recomende à sua esposa moderação nas compras de toilletes, e eventual reutilização com ligeiros arranjos por uma costureira jeitosa. Aproveite a época de saldos para a renovação do guarda-roupa. Fica por metade do preço. Não compre nas feiras. Normalmente a qualidade é inferior e o preço nem sempre compensa. São despretensiosos conselhos de um, também reformado cidadão, que já viveu melhores dias. Deixo à sua imaginação outras medidas que possam ajudar a economizar um pouca mais, evitando o recurso ao pecúlio acumulado à custa de 48 anos de poupança e de alguma sorte na bolsa.