O País das notícias fixou o olhar durante alguns dias no corredor de acesso aos balneários da equipa visitante no estádio de Alvalade. Tudo porque a ‘decoração’ continha elementos que exaltavam “a violência”. Viam-se adeptos com rosto coberto e braços esticados, uns com punhos cerrados e outros com a mão estendida, num gesto que pode ser conotado com a saudação fascista. Alegava-se que a mensagem de boas-vindas às equipas visitantes era agressiva, de mau gosto e condenável.

Quem percorre os ‘estádios’ da ‘Madeira Nova’ ri-se com a mediatização exagerada. Agressivos são os nossos corredores nunca fotografados, os acessos bolorentos, as paredes com lodo, os vidros partidos, o chão sem azulejos, os lavatórios encardidos, as sanitas entupidas, os chuveiros mangueira, os avisos de banhos de água fria e de falta de papel higiénico. Agressivos são os varandins enferrujados, as cadeiras partidas e as macas sem lona. Agressivos são os palavrões ou as cuspidelas vindas da bancada. Ou então a cal proibida que queima a pele e o cheiro a creolina….

Não consta que a decoração de Alvalade atemorizasse quem quer que fosse. Até o Nacional de Caixinha arrancou um empate na era da decoração hostil. Só que a polémica instalou-se e os protestos levaram o Sporting a redecorar o famoso corredor com um campo de girassóis, a que juntou borboletas. A exaltação da violência deu lugar à paisagem bucólica e esta ao gozo nacional. O País das notícias serenou. Mas bem podia contribuir para a redecoração de corredores de acesso a outros ‘balneários’.

O líder parlamentar socialista deu a dica ao admitir no ‘Sol’ que a 'bancada do PS não é um balneário fácil'. Isto porque, no seu entender, “as equipas vencedoras não costumam ter balneários fáceis”. Uma boa decoração facilitaria o ambiente. Recomendam-lhe várias poses de Sócrates, o filósofo, ou então as frases de ruptura do poeta Alegre e as sentenças de Soares.

Ali perto, no corredor de acesso ao ‘balneário’ de Belém, poderiam surgir imagens de fartura, de pastéis, de vacas sorridentes e de notas rosa de euros. Aqui, perto da vista, mas longe do coração de muitos, em plena Quinta Vigia faria todo o sentido instalar imagens do apocalipse. No parlamento madeirense, dada a criatividade reinante, o melhor era deixar as paredes em branco, susceptíveis de acolher grafitis às pinguinhas. Na rua dos Netos ou no CEMA, não ficava mal o símbolo do infinito.

Lá como cá, quando não se vislumbra nada de determinante, resta olhar para a decoração. Paradoxalmente, revela bem mais do que aquilo que se vê.