Vem isto a propósito das múltiplas ocasiões em que, em contexto educativo e escolar, dizemos aos nossos alunos: "tenham juízo". O que queremos realmente dizer com esta exclamação? Ou as frequentes situações em que recordamos aos nossos filhos, especialmente pré-adolescentes ou adolescentes, a quando de uma saída para uma qualquer actividade ou diversão: "vejam lá, tenham juízo!". O que desejamos transmitir com esta expressão? Por acaso, já paramos um pouco para analisar, reflectir e aperceber-se do sentido, do significado e do alcance desta expressão? O que é afinal isto de "ajuizar", de "ter juízo"? Será que estamos a questionar e pôr em causa as capacidades cognitivas das pessoas a quem dirigimos essa exclamação? Claro que não! Será que estamos a chamar a atenção para a eventual falta de maturidade dos destinatários dessa expressão? Naturalmente! "Ter juízo" é ser capaz de, nas diferentes situações e contextos em que se está inserido, ter o discernimento, o julgamento e a percepção do que está "em jogo", definir prioridades, ou seja, hierarquizar em função dos valores e princípios que constituem o nosso referencial ético, e tomar as melhores deliberações. "Ter juízo" é fazer um diagnóstico real e realista das situações, acontecimentos e experiências em que estamos envolvidos, definir o prioritário (o mais importante, o mais relevante, o mais significativo, o mais valioso) e escolher bem. É que este processo de valorização e decisão, ou seja, o "ter juízo", compreende algumas operações, cujo percurso é necessário fazer de forma integral para se poder afirmar que uma pessoa atingiu um valor e se decidiu nesse mesmo sentido. Assim, a escolha deve ser livre, isto é, sem qualquer tipo de coação ou chantagem, feita entre alternativas, distinguindo várias posições e pontos de vista, depois de antecipar e considerar as consequências de cada alternativa. A escolha feita deve trazer felicidade, bem como a capacidade de elogiar o valor em presença e o desejo de afirmar e manter publicamente o caminho escolhido, numa manifestação coerente e numa vivência de acordo com a escolha efectuada. Neste processo sobressaem dois valores: a responsabilidade e a justiça, enquanto capacidade de visão das necessidades e das condições dos outros que vão constituir-se uma espécie de critério de controlo da qualidade da minha acção e dos meus próprios deveres. Deste modo, escolher bem é decidir aquilo que dignifica toda a pessoa. É seguir o caminho da valorização das pessoas e da sua dignidade inviolável. É apropriar-se do BEM, como referencial último da tomada de decisão, pois quem escolhe o BEM, certamente que escolhe bem. Ora, na complexidade dos nossos atribulados dias, apelidados esterilmente, de modo especial pela comunicação social, de "tempos de crise", é necessário que todos nós sejamos capazes de "ter juízo", ou seja, de escolher bem. Nestes tempos decisivos em que se exigem decisões fundamentais, temos todos de ter bem presentes esta necessidade de "ter juízo".

Marco Gomes