Pronto, assumo, também eu, de forma reincidente, já apelei a que o nosso presidente da República falasse mais vezes. Que usasse a sua magistratura de influência. Que falasse dos pobres, da situação do país, das dificuldades de um povo no limiar da miséria, dos desempregados, dos reformados, das crianças que chegam à escola sem comer, dos que têm de recorrer à solidariedade por um pedaço de pão e uma tigela de sopa.
Sim, admito, também eu já acreditei que o senhor Aníbal Cavaco Silva pudesse fazer qualquer coisa. Mas isto de acreditar tem sempre os seus riscos: o maior deles é deixar de acreditar, perder a inocência.
Depois das declarações desta última sexta-feira, não me passará pela cabeça pedir ao senhor que fale. Antes pelo contrário, peço até que se cale, se faz favor e se conseguir.
É que o homem nem faz a mínima ideia do país em que vive. Só assim se explica a distinta lata de declarar que os cerca de dez mil euros de reforma que aufere se calhar não vão dar para pagar as despesas.
O escandaloso aqui não é o valor da reforma. Se o senhor trabalhou, descontou, nada mais natural que receba aquilo a que tem direito. O escandaloso e absurdo é que ponha aquele ar sofredor e declare que dez mil euros não vão chegar para pagar as despesas, quando sabe que a maioria dos portugueses tem pensões que não chegam aos 300 euros e ordenados inferiores a 600. Se o senhor Aníbal não consegue viver com 10 mil euros, imagine o povo.
Aqui há pelo menos duas situações gritantes. A primeira, e nem sequer é novidade, é que neste país do qual é presidente da República vive-se com ordenados de miséria, e a segunda é que temos um presidente que vive acima das suas possibilidades. Se o que ganha não dá para o que gasta... a conclusão é simples.
O senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, que até deu aulas na universidade sobre finanças e economia, devia saber melhor do que ninguém que tem de haver um equilíbrio entre receita e despesa. Mas, pensando bem, se calhar não sabe. Afinal, faz parte desse rol de políticos que nos trouxe até aqui, ao descalabro financeiro que nos roubou a esperança individual e a soberania colectiva. Neste sentido, a sua declaração de sexta-feira foi, além de ofensiva para quem ganha e vive no limiar da miséria, uma esclarecedora forma de confessar a sua inabilidade e a dos seus pares para a gestão individual, mas também para a gestão colectiva do país.
Assinalamos o 'mea-culpa', mas não estamos em condições de digerir tanta verdade. A realidade já nos traz tão cansados....