Passado o efeito da anestesia ditada pela quadra festiva, habitualmente geradora do perdão natalício e da tolerância cristã, muitos regressam hoje à luta pela sobrevivência que se avizinha complexa e cruel. As desigualdades acentuam-se. A irresponsabilidade não é penalizada. O desgoverno é moda.

Como se não bastassem os anúncios da promoção da pobreza, feitos com frequência em 2011, as primeiras horas de 2012 foram pródigas em sinais que comprovam desnortes diversos e contradições abundantes, com consequências nefastas para o futuro. Basta analisar o surto de mensagens alegadamente de ano novo mas que incidiram sobre a crise. Muita utopia, pouca solução, dando a impressão que Presidente da República, bispos e políticos não vivem neste País mais diverso do que uno, onde os governos fazem das suas à conta das finanças, que dizem ser públicas, do desvio colosssal, do estado de necessidade e de emergência nacional, sem terem preocupações superiores que não apenas as deles.

Os autores das mensagens optam por usar a comunicação social para mandar recados, nem sempre muito objectivos, em vez de exercerem a sua magistratura de influência e, nalguns casos, de aplicarem nos seus mundos o que ditam para os outros. Por exemplo, Cavaco Silva lembrou-se agora de pedir uma agenda para o crescimento e emprego, sem a qual “a situação social poderá tornar-se insustentável”. Ou o presidente brinca em serviço ou goza com os portugueses. Desde o Verão que o governo anda a anunciar medidas de combate ao défice sem ter preocupações com o crescimento da economia e foi preciso esperar até ao ressacado primeiro de Janeiro para exigir calendários em nome da paz lusa? Para que servem as audiências semanais com o Primeiro-Ministro? Será continua a não ler jornais? Não há estômago que aguente tanto murro ainda por cima em ano bisexto.

O mesmo Presidente exige “coesão nacional”. Está distraído. O separatismo anda por aí a monte, agora animado por slogans pagos com dinheiros públicos. Até há um meio, de quem a Região é sócia, que se gaba que “só defende o povo madeirense”. Sem surpresa. É assim que pensa o chefe, o mesmo que deu cabo do investimento directo estrangeiro por inabilidade negocial e incapacidade no diálogo, o mesmo que hostiliza por sistema os ingleses e que também quem quis expulsar chineses do território. Peçam-lhe contas sempre que ficarem mais pobres, mesma sabendo que não contam com o dito cujo intitulado jornal para questões de superior interesse Nacional, para direitos humanos e valores que não se confundem com a mediocridade de um homem só.

O mesmo Presidente pediu que, nesta conjuntura difícil, os agentes políticos “expliquem aos portugueses o fundamento das suas decisões e que sejam os primeiros a acarinhar as sementes de uma nova esperança, agindo com justiça, com ponderação e com sensibilidade social”. Devia ter ouvido a conferência governativa madeirense sobre uma 'carta de intenções' em que nenhum dos corajosos presentes ousou ser claro no capítulo da austeridade, nem assumiu o que nos cabe pagar pelas asneiras do poder e pelo nojo que é a sistemática fuga às reponsabilidades, a incapacidade de definir prioridades, a manutenção de luxos e mordomias e o desrepeito ordinário por um eleitorado enganado e manietado. Devia ter mão na anarquia crescente e no despesismo doentio.

Consumado que está o assassinato da Autonomia, resta uma espécie de território destituído de poder, a Região Política da Madeira, com actores bem pagos que trabalham para os 'apanhados', que se vangloriam de não conhecer a austeridade decretada e que se exibem sem vergonha. Não é que 2011 fechou com 'o bobo da corte' a passear-se na 'placa central', a forçar cumprimentos, fotografias e elogios? Quis ser notado. O ego denota fragilidades a precisar de terapia. Mas todos conhecem o diagnóstico.