António Moura Correia Adeus, adeus, adeus não vale a pena, há solidões perdidas quando se diz adeus a alguém mas não direi adeus, por isso eu serei um rio sem destino e só mas não direi adeus… O telefone tocou e do outro lado a notícia que não queria ouvir: o Sérgio Borges partiu para a última viagem! A última tournée do artista! A informação caiu como uma derrocada! Por muito que sejamos fortes, pela muita fé que tenhamos, por muito que se esteja preparado - que nem era o caso -, nestes momentos sentimo-nos verdadeiramente diminuídos, impotentes. O Sérgio? Mas porquê o Sérgio?! Para quem como eu, que teve o privilégio de ser seu Amigo desde longa data, com Ele conviver largos momentos sempre alegres e positivos - positivos sim, porque o Sérgio para quem não saiba, era uma pessoa alegre, positiva, optimista -, não podia aceitar de ânimo leve uma notícia destas. Mas a verdade gélida ali estava, o Sérgio partira para não mais voltar. Fica-nos o alento de que apenas partiu o Homem - mas que homem, que verticalidade! O artista também partira mas apenas fisicamente, dado que a sua grande obra fica. Os seus discos, as suas canções, essas ficaram e ouvir-se-ão com maior intensidade a partir de agora, para regozijo de todos nós, como aliás sempre acontece com os grandes mitos musicais, nestas situações. Ter convivido com o Sérgio durante muitos e muitos anos foi um privilégio singular, como atrás refiro, já que não muita gente teve a felicidade que eu tive de com Ele privar, aprender e testemunhar a sua enorme sensibilidade humana. Na vida há situações boas, que gostávamos que fossem repetidas uma ou mais vezes. Estar com o Sérgio, conversar com este Homem íntegro, era sempre um prazer único, uma dessas situações boas! Já depois da sua retirada dos palcos por força da sua saúde, estar com Ele, era sempre uma sensação diferente. Graças a Deus fui também nessa fase um felizardo, já que a vida nos proporcionou alguns encontros nestes tempos mais recentes, e embora a situação não fosse nada fácil para o Sérgio, nunca ouvi da sua parte um lamento, uma situação menos boa. Aquela comunicabilidade ímpar que exteriorizava nos diferentes palcos por onde passou era única, verdadeira, e só poderia vir do íntimo de um grande artista e de um Homem invulgar. Facetas nem sempre fáceis de se conciliar na vida artística. Mas o Sérgio tinha. Essa comunicabilidade fazia parte da sua maneira de ser e estar na vida. A sua popularidade derrubou fronteiras, humanamente falando, já que o Sérgio nunca difirenciou classes ou pessoas, dedicando toda a atenção, carinho ou simpatia a quem, mesmo muito humilde se lhe dirigisse. Assistir aos ensaios do Sérgio e dos colegas do então Conjunto Académico de João Paulo - a que tive o grato prazer de assistir por muitas vezes -, era já de si um espectáculo, embora no sentido figurado, naturalmente. Com o devido respeito pelos restantes elementos do grupo ainda vivos - onde se inclui meu irmão Ângelo - o Sérgio era o cérebro, o líder incontestado do grupo, e aqui - nos ensaios - vestia a pele de "maestro", e dirigia ele próprio a condução das várias músicas/can-ções com um profissionalismo único, sugerindo com o seu talento também invulgar, acompanhado ou só, alguns arranjos musicais. Neste particular, o Sérgio não tinha muito trabalho porque tinha bons "profissionais" no grupo, o que lhe facilitava a tarefa. Mais, o Sérgio dedilhava ao piano todas as canções que interpretava o que facilitava os ensaios. Aliás, o piano era o instrumento da sua preferência, e deliciava-se tocando, o que fez até aos últimos dias. A par de uma cultura geral multifacetada, o Sérgio era um poeta nato, tendo escrito desde muito cedo letras de muitas canções que em conjunto com o grupo tornou-as em outros tantos sucessos, sendo alguns deles cantarolados na praça pública. Outros tantos ficaram por editar, mas todos eles farão parte do rico espólio que o Sérgio deixa à Madeira, Sua terra querida e que Ele tanto amou. Obrigado Sérgio por tudo o que nos ensinaste. Terminantemente a Ilha ficou mais pobre! À Rose e aos filhos, Filipa, Sofia, Sarah e Daniel o meu respeito profundo pela memória do Vosso Pai. Que repouse em paz a Sua alma, que Deus Lhe dê eterno descanso, e que nós cá na Terra sejamos dignos da Sua Memória.