
Alguém deveria explicar ao José Manuel Coelho que o que os madeirenses mais prescindem para o futuro é guardar tesourinhos deprimentes como aquele que o deputado do PTP protagonizou ontem na Assembleia Legislativa da Madeira, quando resolveu ocupar o lugar do sempre ausente presidente do Governo Regional para depois se envolver em empurrões com os seguranças do plenário. Compreendeu-se a mensagem subliminar, mas, além da provocação puramente gratuita aos órgãos de soberania (por mais pecados que tenham) ou da incessante sede de mediatismo para saciar a popularidade da figura egocentralizada no deputado irreverente e destemido, muito sinceramente, eu não vejo em que medida aquela teatralização burlesca, que teve mais de ridículo do que satírico, mais de deprimente do que cómico, mais de paródico do que fantástico, contribuiu para atenuar a escalada do desemprego para níveis nunca antes vistos (perto de 20 mil), para proteger os madeirenses das sucessivas vagas de instabilidade sócio-económica e financeira, ou ainda para garantir justiça na carta de intenções que será muito brevemente assinada por Alberto João Jardim e que ameaça provocar um ‘tsunami’ devastador - na economia, nas famílias, nas empresas e na administração pública insular - o suficiente para merecer o mínimo de consideração daquela que é, no Parlamento madeirense, a terceira maior força partidária da oposição.
É por isso que me parece que o Coelho vive, tal como Jardim, num mundo de ficção, copiando o estilo exótico e rebelde do chefe do Executivo mas colocando-se no pólo oposto. Se o maestro vai dirigindo a orquestra à medida que o navio afunda, o bobo vai se divertindo com o chocarreiro. A plebe vê a água chegar-lhe ao pescoço e resta pedir clemência ao divino para que tudo ao menos encalhe. Da boca de quem assume o leme, não se ouve um acto de contrição que seja. Se o comandante deste navio insolvente à deriva no oceano imitar Francesco Schettino, acusado de ter abandonado o Costa Concordia no Mar Terreno, penso que ninguém classificará o filme de comédia dramática. Nem mesmo José Manuel Coelho. Porque o País das Maravilhas de Coelho não é o da Alice da obra de ficção de Charles Dodgson: fértil em enigmas, espelhos, criaturas e alusões satíricas. Esta variante do 'nonsense' revela-se numa versão que poderia chamar-se de Tolice no País das Buganvílias, onde a lógica do absurdo se revela na fantasia da independência da Madeira ou nas flores trepadeiras que escalam cadeiras e espalham os tentáculos por qualquer ponta de arame solta. P.S.: A notícia avançada ontem à noite pelo DIÁRIO e pela TSF-M, dando conta da intenção em encerrar o serviço de urgência dos centros de saúde de Santana e do Porto Moniz durante o período nocturno, a partir do próximo mês, foi mais um erro de ‘casting’ do Governo Regional. Porque é mais um exemplo da farsa política que vai despontando diariamente, afastando os desapontados eleitores da participação democrática e despertando os cidadãos para a realidade por detrás do oficioso. A decisão até pode estar devidamente fundamentada no baixo número (até então desconhecido) de utentes que, entre as 22 e as 8 horas, recorrem àqueles serviços de saúde pública. O problema é que põe a descoberto um compromisso assumido publicamente por Jardim Ramos, nem tem cinco meses sequer. Em Agosto último, antes das eleições, a Secretaria Regional dos Assuntos Sociais garantiu que o encerramento do serviço de urgências de Santana no período nocturno (na altura falava-se de que os utentes seriam encaminhados para Machico a partir de Outubro), não eram mais do que boatos crónicos “postos em circulação pelo PS que todos os anos faz a mesma coisa e as pessoas já devem estar cansadas de ouvir sempre a mesma coisa”. Assumiu que tudo se manteria igual caso fosse reconduzido no cargo de secretário. Jardim Ramos falhou redondamente no prognóstico e só acertou quando diagnosticou o quanto as pessoas já estão saturadas “de ouvir sempre a mesma coisa”: as promessas que não se podem cumprir, ou seja, as mentiras sucessivas de quem governa. E quanto menos a palavra for empregue em prol da verdade na política, mais apodrece a democracia.