No entanto, e no caso Português, estamos perante uma situação patológica que perdura há séculos. Trata-se de um sentimento de orfandade profunda que sempre nos tem acompanhado ao longo dos últimos séculos, que decorre desde a época dos descobrimentos e que invariavelmente nos tem conduzido a uma existência de dependência permanente. Já Luís Vaz de Camões em 'Os Lusíadas', no declinar da longínqua época dos descobrimentos, apontava o dedo à degradação dos valores pátrios de um país que não merecia os seus heróis. A Geração de 70, na última metade do século XIX, personificada na figura incontornável de Alexandre Herculano, volta à carga escalpelizando as razões da decadência lusitana. Em pleno século XX, Fernando Pessoa, em Mensagem, apela ao nosso grandioso passado histórico numa nova viragem para o mar, reforçando a ideia de um país estagnado, deprimido e sem futuro. Todos eles deixaram um testemunho sentido e saudoso da glória do passado, perante a inércia do presente e a ausência de futuro. Fomos dos Ingleses por muitos e bons anos, entregamos-lhe a defesa do reino aquando das invasões francesas e franqueamos-lhe os portos de Lisboa e do Brasil. Ardilosamente manietados e manipulados pelos Britânicos, acabámos por perder o Brasil, embrenhados na sua astúcia diplomática, o que nos deixou à beira de um colapso depressivo nacional de gigantesca dimensão. A Inglaterra tinha encontrado na independência do Brasil a forma de se ressarcir da incobrável dívida portuguesa. Sempre a divida. Recuámos humilhantemente em África perante o 'Ultimatum' dos nossos pseudo-aliados e a célebre querela do mapa cor-de-rosa, deitando por terra o sonho português de unir Angola e Moçambique, abrindo um corredor no coração de África que ligaria o Atlântico ao Pacífico. Ao cair o pano do século XIX, e no período pós Fontes Pereira de Melo, a monstruosa divida portuguesa afasta-nos dos mercados financeiros, abrindo caminho ao fim da monarquia e a uma desastrosa experiência republicana, que só estancaria com a determinação de Oliveira Salazar, no início do segundo quartel do século XX. Em 1984, e no rescaldo do 25 de Abril, voltámos às garras do FMI com a dívida a apertar-nos novamente a garganta. Hoje, destruída a nossa capacidade produtiva a mando da Europa e dos interesses alemães, assistimos impávidos à falência de uma geração inteira de portugueses de sorte aziaga, condenados a viver as próximas décadas nas ruinas de um país. A ocupação está ai. Somos os novos "Judeus " da modernidade da raça Ariana! Afinal, Hitler ganhou uma guerra perdida e condenada pelo mundo civilizado, que a desmemória desvanecida pelo tempo não nos permite vislumbrar, passadas quase sete décadas após a assinatura do armistício de Rethondes. As razões bem podem ser outras, mas o sonho do império idealizado por Adolf Hitler está de volta. Aos países do mediterrâneo resta apenas assistir à chegada do "bulldozer" do Norte. O memorando de Lisboa ou o armistício português de hoje?

João Fernando Pereira, Licenciado em Ciências da Cultura