"Chulos, fiquem na Madeira e não roubem mais dinheiro a Portugal!". A frase foi dirigida aos jogadores do CAB durante um jogo com o Benfica e é, além de lamentável, o espelho do sentimento que anima portugueses insulares e continentais por estes dias de crise.
Longe vão os tempos do país unido e de lágrima ao canto do olho pela tragédia do 20 de Fevereiro. Longe vão os tempos da solidariedade e do abraço fraterno, acompanhado de música de gosto duvidoso e abraços à Madeira.
Entre o continente e a ilha ergue-se agora um muro de incompreensões mútuas, de acusações fáceis e de uma miopia atroz. Estão errados os que reclamam supostas dívidas do continente à Madeira, e estão errados os que recusam alimentar as ilhas. Somos um mesmo território, uma mesma bandeira, um mesmo povo, mesmo que um oceano dite a distância, mesmo que se tenha de pagar mais para sair e entrar do que se paga para ir ao estrangeiro.
Mas, chegados aqui, importa referir o que pode ter contribuído para esta xenofobia portuguesa. E, se tivermos memória, se formos honestos, não será difícil encontrar os culpados.
Os culpados são os que durante anos alimentaram o contencioso da autonomia, os que aconselhavam cuecas de folha para as viagens ao continente, os que reclamaram estatutos de povo superior. Discurso que em tempo de fartura foi aceite como exótico, como mais um carnaval da Madeira, um endemismo que não incomodava e que até divertia e enchia telejornais em época baixa de notícias.
Mas o mundo mudou, e o que antes tinha graça, agora não tem piada nenhuma. Perdemos o Norte e o Sul, navegamos para um Lesste incerto e a Oeste tudo é novo.
Só esta mudança dita um novo comportamento e não o reincidir, como temos assistido nos últimos dias, no discurso tresloucado e irreal de independências impossíveis e delírios estéreis.
O bom senso tem de imperar de um lado e do outro deste mesmo Atlântico que nos une.