Infelizmente parece que não. Tudo se apresenta para uma continuidade doentia onde o horizonte de esperança de muitos portugueses se dilui, ou, para ser mais preciso, se vai agravando de uma forma galopante com austeridade sobre austeridade, empobrecendo os que são mais pobres e pondo em causa muitos dos direitos sociais e humanos dos nossos semelhantes. Aliás, pior que esta realidade é a afirmação cruel e despudorada que o país tem obrigatoriamente de empobrecer como afirmou o primeiro-ministro para justificar o sufoco com que vivem, já hoje, muitas das famílias portuguesas. Passos Coelho, possivelmente, não sabe que a pobreza é a nossa maior vergonha. A pobreza no nosso país exige de imediato a nossa atenção não só pela dimensão do sofrimento que envolve, mas também, porque são os pobres quem mais sofre se falharmos a solução do crescimento económico, única garantia para estancar o desemprego. Há dias, a comunicação social fazia eco de uma situação que nos devia envergonhar a todos - os 10% mais pobres da nossa sociedade viram diminuir a sua capacidade económica em 6% enquanto os 10% mais ricos diminuíram apenas 3%, desde que as medidas de austeridade começaram a ser implementadas. Este governo tem ignorado algo de fundamental neste desvario obsessivo pela austeridade - a necessidade de proteger os direitos dos mais pobres porque dessa forma protege os meios subsistência e as liberdades de que os mesmos precisam para fazer progressos. Falar em empobrecer é uma afronta a muitos de nós que olhamos à nossa volta e verificamos que as razões de indignação são muitas e que podem estar relacionadas com uma grande parte da população portuguesa, nomeadamente a madeirense. Pensemos nas desigualdades salariais, nas deslocalizações empresariais que conduzem os trabalhadores ao abismo, na dificuldade dos jovens de encontrar um primeiro emprego e até nos quadros que se vêem cada vez mais privados do seu trabalho - empobrecimento do significado do trabalho, cultura da "pressão", métodos de administração aleatórios e conflituosos, etc. De uma maneira geral, face à crise que se manifesta e face às desigualdades crescentes no nosso país, é possível uma implosão social com resultados medonhos para toda a sociedade. Esta paixão pela austeridade revela muito de incompetência e impreparação de quem nos governa mas, acima de tudo, uma obsessão por uma agenda ideológica que nos irá condenar em termos de futuro. Uma agenda neoliberal na qual a lógica do mercado governa agora cada aspecto dos media, da cultura e da vida social - desde a educação aos cuidados de saúde. Á medida que o contrato social se torna uma memória lógica, o novo "estado empresarial" distancia-se a si próprio dos trabalhadores e grupos minoritários, que se tornam cada vez mais descartáveis num novo tempo de incerteza e de medo cultivado. Temos que resistir a esta ideologia neoliberal com novas formas de agência e lutar colectivamente para reivindicar o significado de uma política séria e de uma sociedade democrática. Ao recusar a fácil divisão entre crítica social e análise económica estamos a demonstrar como as estratégias e as técnicas através das quais o fundamentalismo de mercado está a alterar profundamente a vida quotidiana das pessoas e a ameaçar os valores que definem a nossa herança comum. Vivemos em tempos obscuros e o espectro do neoliberalismo e outros tipos de autoritarismo estão a ganhar terreno por todo o mundo. Precisamos de repensar o significado da política, correr riscos, e exercer a coragem necessária para exigir as condições pedagógicos, visão e projectos económicos que fazem da promessa de uma democracia e de um futuro diferente algo pelo qual vale a pena lutar. Em 1931, na Quadragésimo Anno, o Papa Pio XI denunciou o liberalismo sem freio como " … distorção capaz de conduzir a economia à ditadura do imperialismo do dinheiro". De facto a falta de ética pode ser encontrada no fim de muitos raciocínios indagadores a respeito da desordem social, fruto de uma liberalismo descontrolado que se vive no nosso país. " Justiça e paz se abraçarão" é o lema tirado de um salmo (nº85) que fala sobre os tempos em que o Messias vai reinar na terra, e por ser uma época de justiça será de muita paz. É um canto profético de Isaías (32, 17), como um projecto de Deus para o fim dos tempos (como o actual) quando o seguimento a Cristo, já presente no nosso meio, vai ensejar a felicidade humana, pela estabilidade da ordem social. Depois de vivido o Natal fica-nos da sua mensagem que a busca da vida abundante para o povo passa pela reforma da nossa consciência política. Não é mais possível elegermos alguém para se arrumar, ou entronar-se em algum esquema, como é tão comum acontecer. A luta pelo bem comum, na prática de um político decente, faz acontecer essa vida abundante que Jesus veio trazer, que em sua dimensão terrena é o vestíbulo para o Reino de Deus. O que este Natal nos quis dizer é que a concretização da paz, ideal dos tempos messiânicos, passa necessariamente, pela mediação de uma política ética, cristã e solidária.
José A. Roque Martins