E andamos nisto. Os políticos de topo, os que deviam fazer girar a economia nacional e regional, vivem entretidos a defender-se a si e aos seus. Aos grupos de interesses, aos mesmos de sempre. E esquecem, cruelmente, a outra parte dos mesmos de sempre: a dos que acreditam genuinamente e ingenuamente que estão a ser bem defendidos por aqueles em que continuam a votar. Neste carrossel em que nos meteram, continuamos a subir montanhas de aumentos com a mesma velocidade com que descemos vales de cortes acentuados. E o pior é que andamos nisto há meses. Desde antes do Verão que na Madeira não se governa. Ou melhor, alguns ainda se governam, certamente, mas o exercício da governação está claramente arredado da agenda política que nos foi imposta, democraticamente imposta, é verdade, pelos eleitores madeirenses. Desde antes do Verão que na Madeira só se pensa em eleições. O Poder para as ganhar, a Oposição para perder por menos. Os eleitores, esses, perderam! E depois das eleições perdeu-se o rumo da governação, esqueceram-se do caminho a seguir, o que nos devia guiar. E meteram-nos no tal carrossel. A máquina até anda, e depressa, mas anda sempre pelo mesmo caminho. O mau caminho. Esse caminho sinuoso trouxe-nos até aqui, até à pior fase da Madeira do pós-25 de Abril. Até ao desemprego galopante e assustador, até ao encerramento e insolvências de empresas de sucesso, até à impossibilidade de pagar contas que pareciam simples, até ao sufoco em que vivem centenas, ou milhares de famílias madeirenses... até à falta de medicamentos a preços justos. Enquanto a Madeira passa por isto, quem manda na Madeira joga à política. Ele é plano A, ele é plano B, ele é crise política nacional, é ameaça a Cavaco, é pressão a Passos, ele é tudo. E não percebe, nem ninguém ousa dizê-lo, que, neste momento, ele é pouco mais do que nada. É um ser humilhado politicamente como poucos ou nenhuns vi até hoje. Li nos últimos dias a famosa carta de intenções e fiquei pasmado. Fiquei com pena de quem teve de deixar ali o seu nome. Porque aquilo não é uma simples carta de intenções, é um envelope de obrigações! Nem sequer é tanto pelo que lá está escrito e que mais tarde ou mais cedo a Região teria de cumprir. É mais pela forma como as letras se arrumam umas a seguir às outras. Num tom ríspido, áspero, rezingão! Fez-me lembrar, juro, uma reprimenda que levei quando andava na escola primária. Por qualquer razão, risquei o caderno do Martinho, colega de carteira. A professora chamou-me à frente, pegou na régua e pediu-me a mão. Eu, então aluno bem comportado, estendi o braço mas esbocei um choro triste antes do tempo. A professora teve pena e mandou-me de volta ao lugar. Aí sim, chorei ainda mais. Pelo castigo sem a reguada ter sido mais duro do que se tivesse levado um ou dois 'bolos' que apenas me aqueceriam a mão. Este revivalismo chegou-me à medida em que lia aquele documento e cogitava sobre o que terá pensado Jardim quando o leu. Tenho a certeza que se sentiu muito mais humilhado pelo tom e pela luva branca do que pelo castigo. A diferença, neste caso, é que a reprimenda escolar apenas atingia um aluno. Já o castigo pelos desvarios de Jardim vai ser derramado por mais de 200 mil madeirenses e a maioria deles não riscou caderno nenhum. Quando muito, fizeram uma cruz dentro de um quadrado num pedaço de papel. E não mereciam tamanha humilhação por apenas dois riscos.