Quem nos anda a trincar? Querem-nos mais estraçoados? Um patê? A gente não consegue engolir mais iscas, mais nada; temos o fígado a arder. Por quem tocam as ameaças? Pelos Homens da recolha do lixo. É uma brisa tão leve? Publicidade a miudezas de frango? Um novo espectáculo? Picardias nas faces. Quem quer saco? Dois cêntimos por uma tartaruga que o não engolirá. A gente já come plástico na caixa do supermercado e está a pensar nos tostões para os Homens do lixo que nos tocam a campainha, às 8 da manhã, para receberem a melhor sobretaxa extraordinária que até agora, no Natal, gostavamos de pagar. Já nem cliente de risco se é. Somos só de risco. Bons hospedeiros de larvas e casulos para andarmos para aqui a morrer de dentro para fora, como as palmeiras e não de pé como as árvores. É sem copa, é cortados às postas e incinerados depois. Damos estalidos no lume, eramos Madeira, mas os escaravelhos 'avoam... - Quer saco? - Não minha senhora. Sabe, entendo que um pedacinho de rolha a ser engolido num cálice de madeira não é coisa para se salivar ou palitar os dentes. É deixar a cortiça chegar às pregas estômago. - Quer ...? - Queria ser sobreiro, viver vários anos, raspar-me e render muito aos amorosos. Não posso vender balões todos os dias do ano, não há várias noites dos mercados. - ... Saco? - Não. Quero que me leia a sina. Passe-me o laser a ver se apito. A quanto é que estou? Quero apenas vibrar por simpatia e rebentar. Queimámos as pestanas a trabalhar para encher os nossos balões e é isto. - Quer saco? - Não obrigado, vai tudo nos bolsos e debaixo dos sovacos - disse eu com as bochechas cheias de 'alloz' trinca a crepitar. Ela desligou o alarme e ofereceu-me hélio. Não nos embuchem. Traídos ou entregues ao raiar? Circula moela, circula.
Élvio Camacho, Actor