Nós Médicos, há muito conhecemos o Dr. Cordeiro da Associação Nacional de Farmácias. Por diversas vezes cruzámos com os seus interesses e quase sempre fomos mal tratados.
Como todos os "donos do dinheiro", o Dr. Cordeiro é implacável no momento decisivo. Não lhe falha a voz quando ameaça nem lhe treme a mão quando aperta a bolsa (e não só) de quem não lhe paga.
Com tal fama, mal correu a notícia que o Dr. Cordeiro tinha chegado à Madeira, logo se instalou o pânico na Região. Terá insinuado o Dr. Cordeiro que, quando bateu à porta do Senhor Governo para lhe pagarem os 77 milhões, sentiu uma restolhada, como se lá dentro houvesse gente a desmaiar, a procurar esconder-se ou a saltar pela janela.
Tolhidos pelo pavor de o enfrentar, ninguém lhe abriu a porta!
Na nossa imaginação, ficam as imagens eventualmente chocantes dos Senhores Secretários do Governo agachados debaixo de uma mesa, enroscados dentro de um armário, pendurados no vão de uma janela ou trancados na retrete, à espera que a sombra enorme do Dr. Cordeiro dobrasse a esquina da Rua das Hortas e se fosse embora.
Mas o mais grave e sério, é que, quase sem falar e num só dia, o Dr. Cordeiro arrasou a credibilidade moribunda de um Governo Regional, ridicularizou uma Autonomia guardada na nossa memória e humilhou os Madeirenses, sobretudo aqueles que elegeram este Governo Regional e confiaram na sua competência e coragem para gerir tempos difíceis.
Mas quem deu tanto poder ao Dr. Cordeiro?
Não foi a 'troika', nem os chineses, nem os alemães nem os ingleses do Diário de Notícias.
Não foi a Maçonaria, o Opus Dei ou a Trilateral da Banana.
Muito menos o Presidente da República, o Primeiro-ministro ou o Dr. Gaspar, que já pouco mandam neste País. Nem pode ter sido o malvado do Sócrates, pois esse está em Paris e já só fala francês.
Quem deu tanto poder ao Dr. Cordeiro foi quem ao longo de trinta anos nunca perguntou aos madeirenses se preferiam mais uma marina afundada ou ter a sua reforma assegurada. Quem nunca perguntou aos madeirenses se optavam por mais um Centro Cultural enorme e vazio ou por um novo Hospital. Se desejavam mais um túnel onde não passam carros ou medicamentos garantidos, sem a ameaça do Dr. Cordeiro.
A promessa renovada em cada eleição de que se podia ter tudo, ficar a dever quase tudo e não prestar contas a ninguém terminou de forma dramática e grotesca, com um qualquer Dr. Cordeiro a humilhar os nossos doentes.
Sugiro ao Senhor Governo que para limpar a face entregue ao Dr. Cordeiro uma lista com as fortunas fáceis que rapidamente cresceram encostadas a favorecimentos suspeitos ou a compromissos viscosos. Pela calada da noite e entrando pela janela, certamente que o Dr. Cordeiro lá encontrará facilmente os 77 milhões de que anda à procura e lhe são devidos.
Mas o "caso cordeiro" é apenas a ponta do icebergue de uma realidade há muito anunciada mas sempre escondida. A verdade saiu timidamente da penumbra e para que todos pudéssemos ver melhor o que se passava acendeu as luzes da razão.
E o circo ficou todo iluminado.
Sem surpresa, todos podemos então ver que o Rei vai nu!
Já nem as "calças na mão" compõem a sua figura de um pobre pedinte, nem uma simples "tanga" disfarça a sua falta de pudor.
Tudo bate certo, pois um pescador meu amigo disse-me que há dias vira a boiar, sem destino ou direcção, umas calças já rotas e uma tanga esfarrapada, nas águas turvas da marina do Lugar de Baixo.
Manuel de Brito