Vivência da profissão docente O direito à paternidade é, como não poderia deixar de ser, universal e inalienável. Qualquer pessoa pode ter o número de filhos que entender, tenha ou não condições para tal, tenha ou não tenha uma família que os acolha, cuide e eduque. Qualquer mulher alcoólica tem a liberdade de beber durante a gravidez, correndo o risco de dar à luz crianças com o chamado "síndroma fetal alcoólico", entre outras patologias, ou seja, crianças com pouca ou nenhuma capacidade de aprendizagem, com instabilidade e défice de atenção, dislexias, disgrafias e outros que tais. As crianças, maltratadas e negligenciadas permanecem, salvo raras excepções, à responsabilidade dos maltratadores e negligenciadores na mais completa impunidade, vivendo e crescendo sem regras ou educação. A sociedade, no seu global, está mal apetrechada de estruturas que defendam o interesse das crianças. Quando em "situações limite" o Estado se substitui aos pais, fá-lo, normalmente,atravésde instituições de solidariedade social que, apesar de toda a boa vontade, muitas vezes não estão equipadas a nível de recursos humanos e materiais de forma a possibilitar a resposta necessária e adequada. A estas crianças é negada a possibilidade de crescer em ambientes saudáveis física e emocionalmente. A grande escassez deste tipo de resposta faz com que os menores adquiram os mesmos comportamentos e atitudes dos progenitores, mantendo e projectando para o futuro o círculo vicioso de miséria e subdesenvolvimento. Em contrapartida aos subsídios de que os "encarregados de educação" frequentemente dependem, não existe uma indexação nem a exigência de educação ou reeducação,quando tal se mostrar necessário de modo a que fazer com que estes se responsabilizem minimamente pela vida escolar dos seus descendentes. Às reuniões para encarregados de educação realizadas nas escolas, normalmente só comparecem os encarregados de educação dos alunos com sucesso escolar, justamente e como está sobejamente estudado, porque não entendem a cultura e a linguagem da escola e desde muito cedo perderam o controlo sobre a vida, a educação e a escolaridade dos filhos. Muitas vezes os alunos são oriundos de famílias completamente desestruturadas e disfuncionais. As escolas não dispõem nos seus quadros de assistentes Sociais. Estas e outras situações que não foram despistadas e objecto duma resposta precoce desembocam "em bruto" na escola, que não está preparada científica e estruturalmente para dar uma resposta adequada a este tipo de exigências. Os governos, subordinados às agendas económicas que normalmente prosseguem para a educação, integram tudo no "mesmo saco", tentam compatibilizar na mesma turma as necessidades de crianças com grandes dificuldades na aprendizagem e/ou com problemas disciplinares e emocionais, com aquelas que podem prosseguir uma escolaridade "normal". Esta "integração" é feita, com base numa argumentação aparentemente "piedosa", no sentido de evitar uma indesejável discriminação desses alunos. Não conseguindo resolver estes problemas, a tendência é para cada ciclo de ensino "despachar" para o ciclo seguinte estes alunosaté estes atingirem o limite de idade obrigatório de permanência na escola. O tempo que passaram no sistema educativo, de pouco lhes serviu e entretanto infernizaram a vida de toda a gente, contribuindo para nivelar por baixo os resultados, em que aparecemos tão mal na "fotografia", nos PISA's e outros. A partir do consulado da ministra Maria de Lurdes, professores com provas dadas reformam-se antecipadamente em e catadupa sem se importarem com penalizações na sua pensão que por vezes rondam os 50% do ordenado, ao fim de muitos anos de trabalho. Os professores estão desesperados, não sabem como lidar com estas situações, querem sair a qualquer custo, pois não conseguem aguentar a escola como está na actualidade. Recentemente no dia 27/09 veio a público que os professores entre outubro de 2010 e janeiro de 2011 apresentaram 70 mil atestados médicos.Naturalmente, entre estes, também se encontrarão seguramente alguns "baldas". Tal como as outras também não somos uma profissão sem mácula. Perante esta situação a melhor resposta que o ministro Crato encontrou foi colocar estas baixas sob investigação pelasinspeções da Saúde e da Educação e pelo Ministério Público por suspeita de fraude. Melhor seria que o Sr. Ministro investigasse o porquê, a razão de ser dessas baixas e dessas reformas precoces e agisse em conformidade, tornando a escola melhor e mais saudável para todos os que dela usufruem, vivem e trabalham.Será que ele pensa que o irá conseguir com o anunciado corte de 500 milhões na educação? A função docente tornou-se numa profissão "chata, pesada e burocrática e deprimente" com procedimentos, impressos e papéis desnecessários, a maioria dos quais ninguém vai ler e que servem apenas "para inspetor ver". Os professores na sua maioria estão desencantados com a profissão, gastos, desiludidos, com situações de indisciplina, com pais que se demitiram da sua função, fartos de "trabalhar para o boneco", com faltas de respeito e de consideração diárias. A legislação vigente visa em grande medida objetivos eleitorais e estatísticos. A discussão pedagógica hoje faz-se em torno do quantitativo, do acessório. As questões que procurei colocar ao longo destes quatro artigos, passam completamente ao lado,tanto do governo como dos sindicatos.
Hélder Melim