" O mostrengo que está no fim do mar/Na noite de breu ergueu-se a voar;/À roda da nau voou três vezes,/Voou três vezes a chiar,/E disse, "Quem é que ousou entrar/Nas minhas cavernas que não desvendo,/Meus tectos negros do fim do mundo?"/E o homem do leme disse, tremendo,/"El-Rei D. João Segundo!/"De quem são as velas onde me roço?/De quem as quilhas que vejo e ouço?"/Disse o mostrengo e rodou três vezes,/Três vezes rodou imundo e grosso,/"Quem vem poder o que eu só posso,/Que moro onde nunca ninguém me visse/E escorro os medos do mar sem fundo?"/E o homem do leme tremeu, e disse,/"El-Rei D. João Segundo!"/Três vezes do leme as mãos ergueu,/Três vezes ao leme as reprendeu,/E disse no fim de tremer três vezes,/"Aqui ao leme sou mais do que eu:/Sou um povo que quer o mar que é teu;/E mais que o mostrengo que me a alma teme/E roda nas trevas do fim do mundo,/Manda a vontade que me ata ao leme,/De El-Rei D. João Segundo!"-"". Não sei se a jornalista Marta Caires naquele Santo Dia da Padroeira, Nossa Senhora do Monte, tremeu três vezes. Reza a História contada por quem esteve naquela "estranha" Sacristia sem Bispo nem Sacristão, que nem uma só vez tremeu! Ainda bem, pois os Adamastores que nascem nos nossos pequenos medos, crescem quando trememos. E quanto mais trememos, mais o mostrengo, segundo Fernando Pessoa, fica "imundo e grosso". Passados séculos, ficámos a saber que continua a haver entre nós, homens e sobretudo mulheres, que ao leme desta nau Catrineta, guardam em si a força de uma herança que transformou o Cabo das Tormentas …. em Cabo da Boa Esperança. Se a Jornalista Marta Caires mostrou que não é por falta de coragem do "homem do leme" que andamos à deriva neste mar que se agita cada vez mais, só nos falta agora encontrar … El-Rei D. João Segundo! Este "Príncipe Perfeito" que a História reconhece como um bom governante, lamentava-se que o Senhor Seu Pai, D. Afonso V, apenas lhe deixara como herança as estradas do Reino, nesse tempo ainda com poucas pontes e nenhum furado. Era a voz sábia da razão, pois o reinado de mais de 33 anos de Afonso V, ficou marcado por uma irresponsável política de concessão de privilégios à alta nobreza que de forma escandalosa, vira crescer o seu património, à custa da divida "colossal" do Reino. Mas D. João II, faz a ruptura com o desgoverno do Senhor seu Pai e sem recear as ameaças duma corte "mafiosa", perseguiu ferozmente (nem sempre da forma mais elegante), a "nova nobreza" enriquecida e arrogante. E assim conseguiu sanear a situação "insustentável" das finanças do Reino. Ao contrário de seu Pai que populista e megalómano aspirava ao trono de Espanha, D. João II com bom senso e não querendo desgastar o seu reino em guerras desbocadas, chegava a um acordo com os Reis Católicos e assinava o Tratado de Toledo e posteriormente, o de Tordesilhas. Lembrados os ensinamentos oportunos e sábios que a Historia transporta consigo, é chegado o momento de perguntar a quem lê esta crónica: entre os personagens que se movem na nossa cena política, em alguém reconhece este perfil de Príncipe Perfeito Regional? Alguém que entendeu, em tempo útil, que suceder a D. Afonso V exige a dignidade e a elegância de esquecer o gesto grosseiro e a palavra feita insulto. Alguém que entendeu, que há um mundo de cultura e sabedoria para alem do cimento útil, mas vazio de pensamento. Alguém que entendeu que deve pedir lealdade e não exigir a fidelidade acéfala e subserviente. Alguém que entendeu que conviver de forma civilizada com os pequenos Adamastores que cruzam o seu espaço, não o obriga a ficar mudo de medo quando o mostrengo, de quando em quando, rasga o nevoeiro e ameaça a sua frágil caravela. Eu, por acaso e sem grande esforço, até acho que El-Rei D. João Segundo ……. "anda por aqui"!
Manuel de Brito