Habituamo-nos, desde o 25 de Abril, a confiar no Estado social, porque ele está ali, está disponível. Se necessitamos de uma consulta médica, ela está disponível, ao fim de mais ou menos tempo, porque existe o Sistema Nacional de Saúde. Se perdemos o emprego, durante algum tempo teremos o respectivo subsídio. Confiamos que no Outono da vida teremos uma reforma que nos permitirá viver com dignidade. Se de todo, não formos capazes de nos sustentar, podemos sempre recorrer ao Rendimento Mínimo Garantido, com este mesmo ou com outro nome. Existem, ainda, o Abono de Família, a Acção Social Escolar, a pensão de Invalidez, a pensão de Viuvez, etc. Este Estado social foi sendo criado, pedra a pedra, maioritariamente ao sabor do prometido nas campanhas para os diferentes actos eleitorais sem, no entanto, haver a preocupação de acautelar a sua sustentabilidade. Gastou-se o que havia e quando deixou de haver com que sustentar toda esta máquina, passou-se à pedincha, acumulando dívida em cima de dívida, contraindo novas dívidas para amortizar as antigas. Desde meados do consulado Sócrates, verificou-se alguma tentativa de equilibrar esta situação através da redução dos benefícios aos vários níveis. Cortar é sempre mais fácil do que reestruturar, disciplinar e rentabilizar. Todavia, o que é um facto é que o estado actual das coisas tem de ser alterado ou o País, sem sombra de dúvida, entra na falência. A actual rapaziada governativa, adeptos confessos da escola dos "Chicago Boys" tem, por ideologia e metodologia o "choque económico" que consiste, sinteticamente, no desmantelamento de tudo o que tenha a ver com social em prol da iniciativa privada, da acumulação da riqueza pelas grandes companhias e fortunas. Veja-se o que estes boys fizeram na segunda metade do séc XX, por toda a América Central e Latina. O Chile e Salvador Allende são um bom exemplo de até onde podem ir estes senhores. A actual crise e o estado das finanças públicas forneceram a estes cavalheiros as circunstâncias ideais para materializarem a sua ideologia que é em suma: se quer reforma, saúde ou educação pague-as, o problema é seu. De grão a grão, da supressão de direito a direito, irão desmantelando peça a peça o estado social tal como o conhecemos. Veja-se por exemplo o que acontecerá à ADSE em 2014. O actual governo até hoje actuou sobre a receita, ou seja: trata de "sacar" mais dinheiro a quem sempre pagou e não foge. A nível da despesa, os "cortes" incidem, em primeira instância, na área social, nos cortes de benefícios sociais. Até agora não vimos (nem veremos) nada sobre a tributação das grandes fortunas, sobre o enriquecimento súbito ou ilícito. Também não se passará a administração pública a "pente grosso", pois nem é necessário recorrer ao "fino", para depurá-la dos parasitas que como habilitação, ofício e ocupação se limitam a pertencer ao partido certo. E quanto a nós? Qual a nossa responsabilidade individual? Em primeiro lugar somos responsáveis por ter eleito este governo, eles não esconderam ao que vinham; pelo contrário manifestaram-no claramente na campanha eleitoral. Por isso não nos podemos admirar nem queixar com o definhar do Estado Social. Ao fim e ao cabo, a escolha foi nossa. Só podemos esperar que colectivamente tenhamos maior lucidez em escolhas futuras. No entanto diariamente adoptamos comportamentos e atitudes que assumimos quase como sendo normais, mas que são igualmente lesivas do estado social, como por exemplo: faltar a consultas (à borla) no centro de saúde; esperar pelo último dia do fim do subsídio de desemprego para só então começar a procurar trabalho; consentir que os nossos filhos faltem à escola ou passarmos falsas justificações; faltar ao trabalho com atestados médicos fraudulentos; pedir a reforma por invalidez sem que haja uma verdadeira razão para o fazer. Se juntarmos a vontade deste governo em acabar com o Estado social a comportamentos nossos que o delapidam, qualquer dia não temos Estado social. Isto não acontecerá de repente; as reformas serão mais tarde e de menor valor, as consultas médicas serão mais caras e maior a espera, as boas escolas serão as privadas, porque às públicas serão retirados os recursos indispensáveis a um ensino de qualidade, a comparticipação (ou dedução no IRS) dos medicamentos será inexistente. Ao contrário daquilo a que estamos habituados, um dia virá em que o velho Estado protector não estará lá, e só poderemos contar connosco, e com os nossos próprios recursos.
Hélder Melim