Alarga-se o desassossego cívico motivado pelo buraco financeiro. E ele é grave. Mas a maior dívida que está por saldar é a dívida social. A Região transporta ao longo de toda a história uma pesada dívida social. Desde o primeiro povoamento, passando pelos rostos dos escravos no ciclo açucareiro, até à canga mais recente da Colonia, acumulou-se uma colossal dívida social feita das profundas discrepâncias entre classes sociais e de clivagens entre territórios. Depois de Abril o regime de exploração continuou. A nova roupagem democrática fez da implantação do Jardinismo o prolongamento do antigo regime. Com os milhões de euros da solidariedade nacional e europeia, a Região dispôs de meios irrepetíveis para o prometido desenvolvimento. Talvez nem no ciclo do ouro do Brasil foi tanta a riqueza circulante nestas ilhas… Agora, em tantas famílias sente-se a miséria e o desespero da fome. Em vez da prometida coesão social, vemos agravadas as desigualdades. Em lugar do anunciado desenvolvimento, aumentaram os desequilíbrios sociais e locais. O desemprego multiplicou-se, a precariedade laboral, a crise habitacional, a escassez de rendimentos ocuparam o nosso horizonte. Aumentou a dívida social. Esta é a grande dívida regional que se acumula há anos. O facto de não ter sido até hoje resgatada a dívida social não se deveu, nem se deve, à insuficiência de recursos. Até agora os meios financeiros foram usados para alimentar privilégios, direccionados para agravar as desigualdades, ao serviço dos senhorios. A dívida social requer a adopção de outros critérios de Justiça Social, exige a viragem das políticas e da definição estratégica do desenvolvimento. Curiosamente, a Região não conheceu até hoje grande desassossego cívico face à dívida social.
Edgar Silva, Líder da CDU-Madeira