Fiz umas contas rápidas. Nos anos 70, quando a Rtp Madeira nasceu, seria preciso um investimento de 30 000 contos em equipamento para conseguir executar, por exemplo uma peça jornalística com qualidade de distribuição. Hoje em consegue-se o mesmo produto com um investimento de 3000 euros. Nos anos 70 a distribuição era um recurso escasso. Em Portugal, existia apenas um sinal hertziano concedido a um canal. Hoje em dia, a imagem em movimento distribui-se via net, canais cabo, e canais generalistas. A possibilidade de distribuição é por isso infinita. Nos anos 70 a organização do trabalho era diferente: a complexidade dos equipamentos exigia equipas grandes, especializadas. Hoje em dia, tempo em que se pode editar um filme num computador pessoal, é preciso produzir muito mais. As equipas são pequenas e multidisciplinares. A democratização dos recursos audiovisuais, tornou a televisão mais conceptual. Cada canal de distribuição tem uma linha editorial muito concreta, dirigida ao seu nicho, que a qualquer desatenção pode migrar para outro canal. Os programas são por isso mais autorais. A Rtp Madeira é uma mistura de tudo isto. Continua com uma estrutura própria dos anos 70, sem a mínima definição editorial, mas com as expectativas de um canal do Século XXI. Mais que um canal, é uma arma de arremesso político. E assim se perde mais um recurso. Uma instituição que poderia ter objectivos de promoção, ou de formação, ou do que quer que seja, não passa de uma máquina que funciona em auto-gestão. Se vai emitir 4 horas ou 40? O que é que interessa? É preciso saber primeiro para que é que queremos que sirva, e como deve funcionar.

Filipe Ferraz, Realizador