Depois de tantos anos em que a maioria dos partidos da oposição andou a chamar a atenção para o problema da dívida regional, depois de serem chamados de tudo pelo PSD, sobretudo pelo seu presidente e afins, é incrível que ainda hoje exista quem escreva que esse alertas não passavam de "gritos histéricos", sem qualquer importância. Se não tinham qualquer importância, porque é que a Madeira chegou a esta situação de bancarrota, de buracos por todo o lado, de mal pagadora para com quem lhe presta os serviços, levando ao desespero os trabalhadores a quem nem o salário é pago? Porque é que a maioria da sociedade fechou os ouvidos aos gritos de alerta? Era mais fácil dizer que os partidos são todos iguais, que a oposição é tão culpada como os que estão no poder, que não vale a pena falar, que não vale a pena lutar... Alguns chegaram a tratar os poucos que ainda se manifestavam como se fossem seres do outro mundo, e outros ironizaram quando alguns partidos da oposição mostravam a pobreza que ainda reina, os buracos que faltam tapar, as obras sociais que faltam fazer, etc… Agora que o problema é assumido pela Troika e seus seguidores é que todos levam a mão à cabeça. Até parece que acabaram de descobrir a pólvora! Desculpem lá, mas se há coisas que não consigo entender é esta falta de lealdade intelectual para com a verdade dos factos. Há muitos, muitos anos, estava eu ainda no Parlamento, já os avisos eram dados, as denúncias eram feitas e as chamadas de atenção para o que poderia acontecer a curto e médio prazo eram permanentes. Lembro-me que foi feita uma campanha a chamar a atenção para as implicações futuras causadas pelas empresas fictícias, criadas apenas para fugir ao controlo da dívida directa, como as Vias para gerir as estradas, as Sociedades de Desenvolvimento, os Institutos e outros afins. Nunca li ou senti qualquer preocupação mais alargada. Pelo contrário, fomos chamados de "mensageiros da desgraça", e até penalizados pelos eleitores. Os avisos foram dados mas a mensagem não passou, porque muita gente a bloqueou. Agora parece que finalmente existem muitos a acordar. Ainda bem, porque mais vale tarde do que nunca. Embora o anterior Governo da República tivesse os dados para intervir mais cedo, não o fez porque não quis assumir perante o País a gravidade da situação que se vivia. Agora o que é preciso é exigir o máximo de transparência no tratamento desta situação, auditando a dívida, apurando responsabilidades, separando o trigo do joio, fechando o que não é preciso e reforçando o que é necessário. Não é pedindo aos madeirenses que se sacrifiquem mais, como alguns querem, que a situação vai ficar resolvida. É preciso que a justiça funcione para penalizar eficazmente os culpados desta situação. É preciso que, de uma vez por todas, o povo abra os olhos e penalize quem usou e abusou do poder que lhe foi conferido pelos eleitores. É preciso e necessário que o Governo divulgue o que está a propor antes das eleições, senão essas poderão ser a maior fraude da democracia. É urgente saber o que está a ser negociado nas nossas costas. Não venha o PSD dizer que só fala depois porque isso não deve ser aceite por ninguém. Queremos saber como será na saúde, se realmente vão ser implementadas taxas moderadoras, queremos saber qual o aumento real que vão sofrer os transportes, etc, etc,… Temos o direito de saber o que realmente se passa na nossa Região para podermos decidir, em plena liberdade, que Parlamento vamos eleger para guiar o nosso destino colectivo durante os próximos 4 anos.

Guida Vieira