O governo ainda liderado por Alberto João Jardim está empenhado em tudo tentar fazer - se é que sabe - para que, segundo o próprio, o DIÁRIO fique colado a um rótulo que o executivo criou, destinado a desconsiderar os profissionais desta casa e, ao mesmo tempo, a relativizar os impactos das notícias que escrevem. A hora é de branquear a realidade. Daí que as ordens sejam claras: tudo o que escrevermos que não agrade a quem mande ou que não seja conveniente leva com um alegado ‘desmentido’. Pouco importa a verdade. O que interessa é o voto, custe o que custar, inclusive a honestidade.
O DIÁRIO noticiou a redução das transferências do Orçamento do Estado para a Região já este mês. O governo não gostou e denunciou “mais uma mentira”, alegando que a mesma redução apenas está prevista para o próximo ano, de acordo com o memorando de entendimento entre Portugal e a Comissão Europeia, o FMI e o BCE. O memorando é claro: em Setembro avança “a redução de transferências para as administrações locais e regionais".
O DIÁRIO escreveu que o desemprego vai duplicar. Brazão de Castro, que nunca soube o que é austeridade, garante que não. E desmente-nos sem mais. Foi prudente. Não seria a primeira vez que falharia por defeito nas previsões do emprego e o que menos queremos é que o fenómeno triplique.
O DIÁRIO informou os madeirenses que o calote da saúde é, no mínimo, de 750 milhões de euros. O SESARAM desmente, sem avançar qualquer outro número, como se tutelasse todo o sector.
O DIÁRIO noticia com rigor. E quando erra, pede desculpa. O governo finge que gere a coisa pública. Nunca assume o erro que penaliza o futuro e quando é chamado a prestar contas, invariavelmente culpa terceiros.
Um governo que mente e esconde, acaba por não ter vergonha de desmentir compulsivamente. Está-lhe no sangue. Até mesmo quando sobre o mesmo assunto já tenha sido ouvido. Até mesmo quando outros, do mesmo governo, já tenham feito qualquer declaração. Por exemplo, o buraco que até nem surpreendeu Passos e Jardim, para Ventura Garcês não passa de uma mísera dívida. Brilhante!
E o governo reage desta forma por estar viciado no eco, sempre com direito a primeira página no seu órgão de desinformação. Julga que todos os meios de comunicação devem reger-se pela cartilha da propaganda que exige para o jornal que tutela. Julga que todos os jornalistas devem ouvir e calar, relevando apenas o que for oficial. Julga que quem pergunta, por vezes, com elevado sentido de Estado, atenta contra os interesses da Região. Está mal habituado.
A semana da ‘insustentabilidade’ foi fértil na fuga governativa aos problemas, com o recurso aos tais métodos depreciativos, porventura aprendidos nos cursos de acção psicológica. É notória a tentativa desesperada de impedir que as rupturas ganhem dimensão trágica internacional. Tarde demais.
A troika e os portugueses despertaram agora para aquilo que tem sido noticiado pelo DIÁRIO ao longo dos tempos e que sempre nos custou ofensas públicas, ameaças privadas, queixas na ERC ou na CNE, processos em tribunal, direitos de resposta, esclarecimentos mal redigidos, inquéritos manipulados, bilhetinhos manuscritos, notas oficiosas e os ‘desmentidos’ seus sucedâneos. Faz parte da vida da imprensa livre sentir que, a par do carinho transmitido por quem se sente servido com a informação necessária, há ódios que crescem na mesma proporção dos factos noticiados, quando estes põem em causa realidades tidas como inquestionáveis e figuras tidas como intocáveis, incapazes de beliscar os mais elementares valores colectivos.
Como se vê, o Governo ainda liderado por Alberto João Jardim está empenhado. Não a fazer o que lhe compete: a cuidar das finanças públicas, a estancar as fugas ao fisco, a tapar os buracos financeiros que abriu, a saldar calotes, a cortar nas despesas abusivas e, acima de tudo, governar. O que o move é a aparência, também gerada pelas promessas inconsistentes, pelos discursos irresponsáveis e pela mesa farta, qual efémera paz para um povo sem pão e palco, sem esperança e rumo.