Não se fala de outra coisa neste verão em que, aos poucos, nos vamos dando conta do buraco em que estamos colectivamente metidos. A dívida passou a ser palavra corrente, coisa familiar, conversa de café, pesadelo mal resolvido e senha para males maiores.

De cada vez que o ministro das Finanças fala, naquele tom pausado e sonolento, ficamos mais pobres. É que não falha, o senhor aparece e já sabemos que vem aí mais um qualquer imposto que vai ao bolso de quase todos.

E nós, que até há bem pouco tempo fazíamos contas apenas àquelas dívidas que voluntariamente tínhamos contraído, ficamos a saber que temos outros credores via Estado, que, afinal, durante todos estes anos, actuou como uma dona de casa desleixada com as contas, descuidada nos deveres e irresponsável nas atitudes.

De repente, é esse mesmo Estado que nos pede a nós para fazermos aquilo que durante todos estes anos não soube fazer: uma boa gestão. Sim, temos de arranjar maneira de corrigir os erros que não deveriam ter sido cometidos por aqueles a quem entregámos, pelo voto, a missão de gerirem a coisa pública a bem de todos. Não o souberam fazer, mas pedem que sejamos nós a resolver o que eles próprios nunca foram capazes.

É claro que agora não há soluções milagreiras, como lentamente explicou o ministro das finanças aos alunos da universidade de Verão da JSD. Sim, senhor ministro, até aí nós já percebemos que tem mesmo de ser assim. Falta explicar, direitinho e ainda mais devagar, o que nos trouxe aqui e, já agora, explicar o porquê dos sacrifícios serem sempre pedidos aos mesmos.

Sim, explicar, muito devagar, a razão de antes das eleições o seu primeiro-ministro ter dito que o Estado não pode pedir mais sacrifícios aos portugueses, quando não está disposto a emagrecer a sua própria estrutura. Gostaríamos muito de saber, ao certo, que cortes nas despesas serão esses. A única coisa que é clara até agora é o que vamos pagar e são claras também as centenas de nomeações que o seu governo já fez nestes poucos meses de mandato.

A continuar assim, também fica claro que aos partidos interessa sempre mais servir as suas próprias clientelas do que servir o país, apesar de baterem no peito como beatas falsamente crentes e pecaminosas.

Senhor ministro, já estamos fartos de dar para esse peditório e, cada vez menos, nos iludimos com falsas intenções. Dessas está o inferno cheio e o inferno, afinal, mora aqui bem próximo.