Neste tempo de "quase" regresso à normalidade do quotidiano, é talvez pertinente referir um "fenómeno" que acontece, que é pressentido, de forma especial, no período das férias. Trata-se daquele "fenómeno" que corresponde às pessoas que têm uma grande capacidade de resistência aos problemas, grandes e graves, que surgem nas suas empresas e tarefas profissionais mas que são totalmente intolerantes às pequenas e quase insignificantes contrariedades do quotidiano, como por exemplo, porque ficou esquecida a garrafa de água dentro do carro, porque é que este talher ficou fora do sítio, porque é que esta roupa não esta colocada no local indicado. São "coisinhas do dia a dia" que acabam, muitas vezes, por infernizar as relações entre as pessoas. Porque será que paradoxalmente, isto acontece com pessoas com grande "estaleca" para resolver grandes problemas? Podemos talvez dizer que a forma como são intolerantes às pequenas contrariedades do dia a dia é o formato possível da sua reacção. São como pequenas válvulas de segurança através dos quais se liberta a pressão dos grandes problemas e assim podem continuar a funcionar. Porém, tais situações não deveriam acontecer. Se calhar, devemos todos ter ainda mais válvulas de segurança para que os problemas grandes não acabem por nos limitar, consumir e definhar. Quando começamos a tolerar um, dois ou três problemas, ao mesmo tempo, tudo começa a desestruturar-se e desorganizar-se dentro de nós e, ainda por cima, criamos aquela ideia megalómana de que quem aguenta três, também aguenta seis problemas (achamos que somos muito mais super-heróis do que de facto somos). Neste tempo de crise temos, por um lado, muitos problemas que implicam que as pessoas tenham de pensar a sua vida, tenham a coragem de tomar atitudes fundamentais de vida e, por outro, temos problemas cuja resolução não passa por rever a vida, por ser corajoso, como por exemplo, empresários sobrecarregados com a responsabilidade de responder simultaneamente às exigências da banca e às necessidades dos trabalhadores, pessoas com dívidas de empréstimos à habitação para pagar e desempregadas. Estas são situações em que aparentemente a única coisa que parece ser possível fazer é arrumar as malas e fugir para outro lado. No entanto, a solução dos problemas começa quando os identificámos, quando lhes colocamos um nome, quando falamos sobre eles (nem que seja connosco mesmo). Os problemas são tão avassaladores e atropelam-nos de forma tão forte e imperiosa que o acto fundamental não passa por encontrar de imediato uma solução, mas por colocar as legendas que todos os problemas precisam ter. Às vezes, acontece que estamos tão sufocados por tanto sofrimento e tão silencioso que, de repente, começamos por não falar de tudo aquilo que sentimos, mesmo que isso seja a maior injustiça do mundo. Ora, quando deixamos de falar sobre aquilo que sentimos, os problemas não só não encontram uma solução, como perdem as "tais" legendas, e isso é o primeiro passo para o surgir da intolerância perante as pequenas contrariedades quotidianas. Ora, as soluções tornam-se sempre mais fáceis de descobrir de mãos dados, em relação, em conjunto, em diálogo e, por isso, quando nos calamos, acabamos por comprometer isso mesmo.

Marco Gomes