A vida tem destas coisas. Nem conheço o rapaz com quem a Fatinha casou, mas as flores do casamento dela estavam em cima da mesa. E era como se aquelas margaridas fossem uma extensão dela, por uns dias ausente daquele lugar em que eu é que costumo estar ausente. Por uns segundos, talvez por a saber em lua-de-mel, recuei aos meus treze anos. Era Verão. Os pais da Fatinha tinham ido ao continente e alguém alugou um filme porno. Seríamos umas cinco ou seis miúdas. Nunca tínhamos visto um adulto nu. Acomodámo-nos no sofá da sala, curiosas. Dois minutos depois, já torcia o nariz e tapava os olhos: "Que nojo!" Aquilo era crescer. E crescer era descobrir. Isto ainda é crescer, embora apenas por dentro. E descobrir, embora quase sempre para lá daquele mar e daquele céu que os vidros transparentes do Quebra Mar deixavam ver. Em frente àquela mesa, sucediam-se pessoas associadas a episódios, por vezes difusos, da infância e da adolescência. Lembrei-me de ver o meu pai chegar a casa com o meu primeiro livro. Era um zoológico com desenhos que se despegavam das páginas. O professor Duarte ensinou-me a fazer uma mesa de telefone que converti na minha primeira estante. Assim, de repente, uma criatura lembra-se de coisas que não lembram ao diabo. E cada lembrança, cada fracção de segundo, pode ser uma prova de uma ligação efectiva e afectiva a um lugar. Há coisas que são tão nossas que ninguém nos tira - nem nós próprios. Mesmo ao meu lado, naquela mesa, o Nuno a lembrar-me que já houve representação nocturna da paixão de Cristo na escadaria que leva à capela de Nossa Senhora de Fátima. Ele fazia de Jesus e eu de qualquer outra personagem. Jesus segura na cruz. Jesus cai pela primeira vez. Jesus encontra Maria. Simão ajuda Jesus a levar a cruz. Verónica limpa o rosto de Jesus. Talvez conte essa história aos netos da Brígida - se ela e o Fernandinho os tiverem. Naquela tarde, olhei para ela e recordei-me do dia em que fizemos fantoches para pôr os reis de Portugal e de Espanha a decidir os destinos do mundo num jogo de monopólio. Às vezes, parece que é assim. Às vezes, parece que quem tem poder gosta de brincar com os destinos de quem não o tem ou não percebeu que o tem. O que vale é que nem sempre consegue.
Ana Cristina Pereira