"Pode ajudar as crianças abandonadas e vítimas de maus tratos na Madeira?". A pergunta foi-me feita à porta de um hospital por um jovem que representa não sei que associação. Primeiro disse que não! Mas voltei atrás e dei tudo o que tinha comigo, uns míseros dez euros. Em troca, levei dois brinquedos e uma fúria tremenda. Como é possível, pensei eu, que uma terra rica em dívidas, tão astronómicas quanto desbaratadas, tenha chegado a este ponto. Na Madeira Contemporânea, na Madeira Nova, voluntários pedem dinheiro para ajudar crianças mal tratadas e abandonadas. Isto aconteceu segunda-feira passada. Terça-feira soube que o Governo Regional inaugurou no Porto Santo um Complexo de Tiro. Uma estância de dez mil metros quadrados para gente de bem com a vida dar uns tirinhos, partir uns pratos. No mesmo dia embasbaquei quando soube que PSD vai dar de comer a quase meia Madeira. São 27 jantares, à borla, para milhares de madeirenses. Com direito a comida e bebida à farta. E alguém tem de pedir pelas crianças abandonadas e vítimas de maus tratos. E ainda vamos ter espectáculos de Fernandes Mendes, de Mickael Carreira e de Toni Carreira. Tudo isto mais bandeiras e toda a parafernália que as campanhas ricas permitem numa região esburacada pelo mesmo partido que a governa há quase 40 anos. Entre os convivas que o PSD convocou conheço gente que mal pode esperar para enfiar o dente na espetada e gente que vai quase obrigada. Quem não aparece está contra, dizem eles. Eu percebo-os. E a esses, se me permitem, deixo um conselho: vão e façam bom proveito! Divirtam-se e escutem a mensagem. Aplaudam se quiserem, mas ouçam bem o que vos dizem. E pensem. Pensei se joga a bota com a perdigota. Perguntem o que é isso da Internacional Socialista, perguntem o que é a Maçonaria e perguntem como se escondeu tanta dívida, como se desbaratou tanto dinheiro em tão pouco tempo. E, se vos deixarem, perguntem também como vamos dar a volta a isto. Quem vai pagar a brincadeirinha que nos fizeram? Quarta-feira ouvi do ministro das Finanças do meu país que a ilha onde vivo é um caso "insustentável". Que precisa de um saneamento financeiro, que precisa de se financiar lá fora como se fosse um Estado independente. Nesse mesmo dia, à tarde, vejo o presidente da minha ilha, de boné posto, fio de ouro ao pescoço, tronco nu, pelos brancos no peito e uma praia linda em fundo, a falar da tal Internacional Socialista, da tal Maçonaria. Num misto de vergonha e de fúria, corei. Quinta-feira, almoço a correr. Um prego para enganar o estômago. Entre outro cliente e o patrão, a conversa habitual: a crise. O patrão preocupado, o cliente, jovem pai, conformado. Que não quer problemas, que apenas quer o seu trabalhinho para garantir o sustento da família. Contenta-se com isso. Sem ambição, feliz pela pasmaceira, de bem com a resignação. Pergunto: será esta a Madeira de gente rija que se apregoa por aí? Que lutou, que conquistou, que perdeu e ganhou batalhas que esta geração ignora e desbarata? Que sedativo terá tomado toda esta gente que vive resignada, de braços cruzados, entorpecida e com os bolsos cheios de nada e as mãos cheias de dívidas que outros contraíram em seu nome. Será isto normal. Acredito que não. Espero que não. Rogo que não. Mas a verdade é que o exercício da cidadania, nesta terra, reduz-se a um punhado de gente catalogada de reles comunistas e fascistas ao mesmo tempo. Quem fala está contra. Mas quem fecha os olhos consente, é cúmplice! É tão cúmplice a sociedade apática e adormecida como as organizações silenciadas. Entre elas, a Igreja. Que aparenta viver bem como tudo isto. Que esquece a sua vocação social. Que, salvo honrosas excepções, fecha os olhos sobre o missal e prega o que não pratica. Que se associa a tudo isto, que sorri quando outros sofrem. Que fala da alma, mas esquece o corpo, a vida real. Que evoca os ensinamentos divinos mas não os segue. Atenção que não espero da Igreja um partido de Oposição, mas espero acutilância, uma mensagem que vá para além da filosofia bacoca e vazia de sentido, quase tão vazia como quando as missas eram ditas em Latim. Por isso, peço perdão aos mais crentes pela utilização, talvez abusiva, da passagem bíblica que dá título a este artigo. Mas é isso mesmo que pretendo transmitir aos que vão com entusiasmo e aos que vão para não parecer mal aos jantares do PSD. Vão, comam e bebam mas pensem antes de votar. E façam-no conscientemente. Se acham que as coisas estão bem, se acham que mais ninguém é capaz de fazer melhor, votem em quem lá está. Se chegarem a outras conclusões, actuem em conformidade. Mas reflictam bem. Estejam atentos e façam do voto a vossa arma de arremesso democrático. Como diriam os prelados mais conservadores, ide. Ide, tomai e bebei todos. E votai no que preferirdes. Mas votai! Lembrai-vos que quem se abstém é cúmplice!