Não seria tudo mais fácil se houvesse coerência entre o que se pensa e o que se faz. Teoricamente quase todos sabem o que é o melhor para si e para os seus, nomeadamente os seus filhos, mas na prática uma grande parte dos adultos age em perfeita incoerência. As razões são diversas e muitas vezes passam por, uma questão de moda, de querer ficar bem perante os outros, de evitar "aborrecimentos", ou apenas um "deixa andar que depois logo se vê". Fico com a sensação de que alguns pais que dedicaram um tempo considerável na educação dos seus filhos, enquanto crianças, por não terem feito uma boa gestão entre as suas necessidades e as necessidades dos filhos, ficaram tão cansados ou mesmo esgotados que no inicio da adolescência, já sonham com o dia da libertação. Deixam ser os filhos a gerir limites para os quais ainda não estão preparados para gerir. O papel dos jovens é quebrar os limites, "esticar a corda", enquanto o dos pais é exactamente o de pôr regras e negociar, "dosear a corda". Óbvio, que educar na adolescência dá mais trabalho do que na infância, ou melhor é uma tarefa diferente que exige disponibilidade e dedicação. Não se salta da infância para a idade adulta. A adolescência é uma fase fundamental no desenvolvimento da personalidade. A educação parental é um processo contínuo, que culmina com a autonomia e a maturidade na idade adulta. Não se pode esperar ou desejar, que logo no inicio da adolescência, os jovens apresentem competências, que ainda não tiveram tempo de amadurecer. É assim como querer retirar os frutos das árvores, antes que amadureçam. Os riscos fazem parte do processo de crescimento, é natural enfrentá-los e descobrir respostas e saídas. Mas não faz sentido fazer tudo de uma vez e completamente fora do tempo. Talvez alguns destes pais, tenham vivido uma adolescência inundada de riscos, e porque a vida não lhes correu muito mal, raciocinam na lógica do "filho de peixe sabe nadar". Contudo, mesmo na lógica da sorte, pudemos questionar o que correu bem afinal. Tudo depende dos objectivos de vida que cada um tem para si e consequentemente para os seus filhos. Outros, que por diversas razões tiveram uma adolescência comprimida, atiram os filhos para a vida, numa lógica de frustração, partilhada á força. " Já que eu não vivi, vivam vocês por mim". Entre tudo isto estão os negociantes da moda que não tendo, na sua óptica, nada a ver com os filhos dos outros, vendem sem qualquer dificuldade, substâncias psicoactivas, lícitas, como o álcool, sem qualquer restrição. Desta forma, alguns pais confiam mais ao menos no destino enquanto os comerciantes confiam na falta de sensatez dos pais, para, juntamente com a sua, verem os seus negócios prosperar. E desta forma pouco sensata, na minha opinião, os adultos divertem-se à sua maneira, pois, melhor ou pior, já têm a sua vida, bem ou mal, orientada, enquanto os filhos, com o seu consentimento, experimentam desnecessariamente, vivências de alto risco, para a sua saúde física e mental. Existem leis que ninguém cumpre e orientações que muitos não respeitam. Bato palmas aos que tentam fazer o seu melhor e que, apesar das pressões e das dificuldades, educam em continuidade num processo de negociação constante e atento. Não existem pais perfeitos nem negociações exemplares, mas existem famílias que não se impressionam com os argumentos de outros e apesar das "chatices" não cruzam os braços", nem optam pelo mais fácil. Pois bem, lá diz o povo que "não há bela sem senão", em breve, infelizmente, alguns pais vão sentir o resultado deste adiar de "maçada" numa fase da sua vida e do desenvolvimento dos filhos, onde tudo se tornará muito mais difícil. É triste quando vemos pais desistir de ajudar os filhos a crescer, devendo ser essa a sua prioridade. Educar dá trabalho, mas pode valer uma vida….

Manuela Parente