As próximas eleições na Madeira geram enorme expectativa. A nível nacional, muita gente esperará que os madeirenses julguem com o seu voto o recente caso da dívida que Alberto João Jardim escondeu deliberadamente às contas do Estado do Estado português nos últimos anos. A oposição madeirense a estes 33 anos de poder maioritário, sem precedentes a nível mundial, esperará o mesmo. O resultado, qualquer que ele seja, terá sempre uma leitura política. E daí que Alberto João Jardim tenha aumentado o tom e a intensidade da campanha e reiterado o pedido de uma grande maioria absoluta. Mais uma. Neste contexto, o que mais valorizarão os madeirenses? A obra gigantesca que Jardim soube dinamizar durante todo este tempo não olhando a custos? Ou a percepção de que os bons tempos estão a terminar, que esta democracia musculada teve o seu tempo e que o plano de recuperação financeira da região, que se vai impor, já não é compatível com um discurso de demagogia e de afrontamento permanente com o governo da República? Eu conheço pessoalmente o dr. Alberto João Jardim. Acho-o um personagem fascinante da política portuguesa, irreconhecível nas representações públicas, algumas incríveis, quando comparado com a personagem que sabe compor em privado. Comecei a ir à Madeira há mais de 30 anos. Aprecio, na generalidade, a obra. Tenho explicado a muita gente no Continente a razão pela qual as maiorias absolutas se sucedem: porque Jardim defende a sua região e estimulou progresso tanto quanto abriu processos kafkianos de que a perseguição ao "Diário de Notícias" da Madeira é paradigmática, coisa indigna e ilegal. A autonomia, seguindo caminhos muito diferentes, produziu resultados nos Açores e na Madeira. Não erradicou a pobreza, como seria desejável, mas corrigiu assimetrias mesmo que tenha estimulado clientelas. Na Madeira claramente foi criado uma classe oligárquica à sombra do presidente do governo. Isso um dia vai terminar e o balanço far-se-á sereno. Tenho a convicção de que não será ainda desta vez que Jardim perderá as eleições mas uns votos a menos não lhe fariam nada mal. Seriam o garante do funcionamento de uma democracia plena, ouvindo as minorias, respeitando o País.

João Marcelino, Director do DN