Manuel C. Marques Começo por declarar o meu registo de interesses nesta área: sou um cultor nato e ao mesmo tempo observador atento das festas que por toda a ilha o povo criou por devoção ou tradição. Acho mesmo que elas servem de espanador saudável para afastar a poluição das notícias sombrias que todos os dias nos massacram os ouvidos. Iinfelizmente, tenho lido comentários sobre as festas ditas religiosas nas quais se esbanjam fortunas em fogo e alcoolismo por entre ruidosos decibéis que saem dos altifalantes, tudo numa chinfrineira artificial e de onde está ausente a genuína alma do povo. E nisso dou-lhes razão nalguns casos. Mas precisamente por isso, acho-me no dever de compartilhar publicamente, através destas páginas oferecidas pelo Diário, a minha satisfação e o meu prazer pessoal e social por ter visto algo de diferente e enternecedor numa dessas festas populares. Perguntar-me-ão porquê. E eu explico, após o esclarecimento de alguns populares locais: é que todo o cenário e todo o conteúdo da festa cheiravam à alma e ao corpo daquele povo. A começar pelo perfume do verde natural dos arcos originais que ornamentam o recinto da festa, fruto do trabalho e das mãos de homens e mulheres voluntários aí residentes, sem nada desses estendais plásticos (como agora se vêem, disfarçados de flores esticadas em todo o lado), depois a decoração leve e graciosa do templo, onde até as toalhas do altar são confeccionadas pelas bordadeiras da zona. Ponto alto da festa foi o espectáculo no palco aberto no amplo anfiteatro natural, onde a população do lugar é rainha e princesa. Foi com muita emoção que vimos descrever nesse palco a história de um povo, em canções originais e bailados cuidadosamente executados por quatro estratos geracionais: crianças, adolescentes, jovens e adultos, com pais e filhos unidos no mesmo abraço musical, cantando em verso e dança os seus sonhos, as suas mágoas, as suas reivindicações. Tudo o resto, os breves foguetes-sinais, banda municipal, conjuntos, tudo serviu de moldura desse belo quadro em que os residentes ocupavam o papel de artistas e protagonistas, em especial a tuna infantil de cordas, composta por executantes de palmo-e-meio ostentando os vários instrumentos de uma orquestra completa. Gostei e até fixei o refrão de uma das canções: "Na festa que o povo organiza há mais alegria e verdade, Por isso trazemos a estrela, que é a estrela da felicidade". Os meus parabéns ao povo da Ribeira Seca, aos participantes e respectivos orientadores.