
O Governo liderado por Passos Coelho assinala hoje 100 dias de governação, cada um deles anunciando uma nova medida de austeridade e ponderando uma nova carga fiscal, um novo aumento, para cumprir as metas da ‘troika’. Não foi certamente, a capa de tecnocrata intransigente e insolúvel na gestão das contas públicas, nem o tom monocórdico, nem ainda a figura estática que permitiram ao ministro Vítor Gaspar preparar terreno para o resgate a Portugal. O ministro das Finanças ‘vendeu’ aos seus homólogos europeus uma compilação de sacrifícios em nome dos portugueses. Assim foi restabelecida a lenta negociação e estreitada a tímida ligação com os nossos sinuosos caminhos sem TGV, as nossas vias férreas de comboios que descarrilam em greves, as novas auto-estradas às moscas cujas portagens ninguém quer pagar ou as vias urbanas onde circulam os metros e os autocarros de transportadoras públicas falidas. Depois do epíteto do ‘bom aluno europeu’ - que encheu de orgulho os portugueses nos anos 90, sobretudo aqueles que viviam a ilusão europeia e a ficção das obras públicas pagas por Bruxelas - querem agora nos ‘moralizar’ com elogios ao Governo. Ainda ontem Paulo Portas tranquilizou as hostes dos ‘negócios estrangeiros’ afirmando que Portugal será um caso de sucesso. Resta saber por quantos mais 100 dias o governo manterá a despesa pública em câmara ardente.
E Vítor Gaspar quase convencia o Deutsche Bundesbank que Portugal e Grécia eram periferias de mundos diferentes. Assim foi até emergir, das profundezas das fossas oceânicas, um buraco financeiro oculto que afundou a “Singapura do Atlântico” e agitou mais ainda um mar já bastante crespado e com correntes adversas para Lisboa. Não tardou até que os mais conservadores dos tecnocratas europeus começaram a situar (financeiramente falando) a Região Autónoma da Madeira no lixo do mar Egeu, à medida que o responsável pela falência técnica do arquipélago e presidente do Governo desta cratera não vulcânica, soltava o mofo de bandeiras separatistas, quase a fazer lembrar a egodescentralização, que é o que representa, no actual contexto, a bacoca independência da Madeira, reclamada há uns anos por um bando de doidos.
A postura do presidente do Governo Regional face ao montante da dívida pública contraída e às contas da Madeira ocultas é de uma irresponsabilidade e incompetência atrozes. Pode até dar jeito ao PSD-M, em período de campanha, para cimentar a popularidade do eterno líder junto do eleitorado madeirense menos esclarecido. No entanto, ao fazer de ‘bulldozer’ das pontes de diálogo e de cooperação que ainda existem para negociar com aqueles que nos são credores e aos quais devemos as obras públicas durante décadas, e que o partido do poder tanto embandeira, Alberto João Jardim prefere não assumir a responsabilidade que é sua e do seu governo, optando por descobrir “vacas sagradas” nos corredores das instituições de Bruxelas, de Berlim ou de Estrasburgo - sedes dos seus novos inimigos externos. Jardim perdeu a piada, já não é mais o inconformista e politicamente incorrecto presidente do Governo Regional da Madeira. É antes, o ingrato, caloteiro e culpado por uma irregularidade administrativa grotesca e, eventualmente criminal – um catálogo onde ele arrola todos os madeirenses, intencionalmente, para que nunca esteja só, nesta procissão de Édipos. E, pior, perdeu a razão e a honestidade, que não se reconquistam apontando outros buracos, mais ou menos simétricos. Esta estratégia de entretenimento popular vai custar-nos os olhos da cara. A concessão por 75 anos do domínio público marítimo da Marina do Lugar de Baixo, destinada a um projecto imobiliário/hoteleiro, que o DIÁRIO noticia hoje, é apenas uma brecha do futuro adiado. É talvez o princípio do amanhã depois das eleições. 75 anos nem é a esperança média de vida de um madeirense (70 anos, no caso dos homens) na região onde se morre mais cedo em Portugal, o que diz muito sobre aquela saúde pública que deveria ser e estar para todos. Mas nem é a vida e o bem estar que nos aflige, perante esta indefinição de virmos a ficar enclausurados entre os buracos na ilha e a ilha das concessões, nem serão precisos 100 dias.