"Democracia ou ditadura, o objectivo é o mesmo: a conquista e a conservação do poder…" (Edouard Balladur, Maquiavel em democracia) Estas eleições regionais são especiais. Apesar do arraial de inaugurações, jantaradas, apelos dramáticos ao voto e promessas a um povo emocionalmente condicionado para em tudo acreditar, o acto do próximo dia 9 de Outubro é diferente de todos os que nas últimas décadas se limitaram a referendar, plebiscitar e eleger sempre o mesmo partido com maioria absoluta, para conduzir os destinos da RAM. Após a assumpção da dívida oculta - esse segredo de Polichinelo - perante as câmaras, a berraria da habitual arenga contra os inimigos quixotescos cada vez mais se enreda nas malhas da contradição e do delírio. Pressente-se que acabou o dinheiro fácil do subsídio da providencial e reverenciada Quinta Vigia que durante décadas alimentou lealdades caninas e seguidismos a troco de fidelidades eleitorais numa perversa lógica de troca de gratidões, (Ajudei, ajudem-me!) práticas alheias ao conceito de direitos e deveres na base das relações de poder em democracia. Já não há retórica à volta da famigerada Lei das Finanças Regionais que resista, e o discurso de 2007 de roubos e garrotes financeiros por parte de Lisboa perdeu actualidade, até porque agora os actores são outros e o seráfico Primeiro-Ministro é da mesma família partidária. E quão distante vai a campanha de 2004 e o pregão de segunda região mais rica do país, com um orgulhoso PIB de 21% que nos fez perder verbas europeias! Em tempo de vacas magras importa fazer o deve e o haver de trinta e tal anos da nossa Autonomia. Ninguém contesta o valor social das infra-estruturas entretanto criadas, em benefício das populações, o fim e o princípio da acção política. Questione-se sim a utilidade, a prioridade, a sustentabilidade e o custo das grandes obras do litoral madeirense com pedra importada da Tailândia, a profusão de túneis, as marinas sem condições de utilização, os heliportos inoperacionais, os centros cívicos e os parques empresariais desertos, enfim tudo o que constitui os elefantes brancos da chamada Madeira Nova. Fiscalize-se o uso dado ao orçamento da Região e às verbas do Orçamento de Estado, às generosas transferências financeiras provenientes da União Europeia e do estatuto de Região ultraperiférica, aos vultuosos empréstimos e malabarismos de engenharia financeira com as Sociedades de Desenvolvimento. Fale-se sim, da dívida pública, directa, indirecta, oculta e desocultada, das assimetrias sociais, do desemprego, da pobreza, dos inevitáveis retrocessos sociais. No limite, questione-se a lógica da construção (ou instrumentalização?) da nossa Autonomia. E na contabilização final, quando se souber o quanto e como vamos pagar o deslumbramento das obras faraónicas inúteis, avalie-se afinal quem são os defensores e os traidores da Madeira! O momento é de conquista do poder e segundo Balladur, "o povo vai atrás daqueles que tentam seduzi-lo…". Importa pois que os candidatos estejam conscientes, quando andam em campanha, que na actual conjuntura não é mais possível continuar a contar fábulas de encantar. A democracia, esse ideal sonhado na antiga Grécia há mais de dois mil anos e instituído no chamado mundo Ocidental nos últimos duzentos anos pelas Revoluções Francesa e Americana, e agora crescentemente reivindicado a Oriente pelas juventudes árabes, não pode ser o reino da fantasia ideológica, nem é coutada privada de ninguém. A utopia da igualdade entre os homens (quando a realidade diz que o homem é o lobo do próprio homem), a construção de uma sociedade mais justa, de uma distribuição mais equitativa da riqueza, do bem-estar e da felicidade, implica gerir os grupos de pressão e o conflito constante entre vontades em luta secular pelas relações de poder e submissão e escolher lados, com todas as consequências. Do mesmo modo a defesa da Autonomia Regional, tutelada nos últimos anos, hipotecada às consequências da governação que os Madeirenses sempre sufragaram com maioria absoluta. Mas que pode mudar.

Júlia Caré