O título do artigo é também o título de um livro de Michel Foucault, mas o facto não vem ao caso, como não vem ao caso muitas das coisas que se dizem e que ainda se vão dizer nesta campanha eleitoral.
É que abrimos, decisivamente, a porta a essa linguagem que tem por fim último o voto e não propriamente a sua significação. O que se diz hoje pode querer dizer outra coisa amanhã e o peso de cada palavra tem mais oscilações do que a bolsa europeia em dia de quedas sucessivas.
Por exemplo, à noite, independência pode querer dizer isso mesmo. Ou seja, está muito próxima da difinição que é feita em qualquer dicionário. No calor de um comício, independência pode ser e é o "estado de não se achar sob domínio ou influência estranha; Autonomia; Carácter de independente".
Mas, com o passar das horas, a independência que tão inflamadamente se apregoou e pediu pode dar lugar a outras definições. Pode ser orgulho em ser português e expressão de descontentamento com o país. Aos mais atentos até pode parecer contraditório as duas definições, mas o melhor é mesmo nunca duvidar da capacidade criativa e do poder traiçoeiro da língua portuguesa.
Maior dificuldade está reservada aos jornalistas que têm a difícil tarefa de interpretar "alegadas frases", para as quais têm de utilizar supostas palavras que dificilmente resistem a um putativo desmentido.
No terreno pantanoso de tanta liberdade criativa, o melhor mesmo é estar atento às mensagens, às suas incongruências, às oscilações de significado e a tudo o mais que, nos próximos 15 dias, vai animar mais uma campanha.
Depois, é esperar que tudo volte à normalidade do dicionário. Às palavras como coisa certa, ao doce conforto de sabermos exactamente o que significa independência ou outros anseios profundos e inconfessados.