Esta novela do buraco das contas da Madeira já tresanda. É tão mau que a cada dia que passa a Região enterra-se um pouco mais. Então esta quinta-feira, foi um caso sério! As três televisões nacionais mostraram largas reportagens sobre as obras faraónicas da Madeira, sobre as extravagâncias da Região. Seguiram o exemplo das duas principais revistas deste País e dos jornais diários. Fizeram, em compêndio, aquilo que, modestamente, este jornal faz quando tem que fazer: denuncia! A marina do Lugar de Baixo, o heliporto do Porto Moniz, o Fórum de Machico, o Parque Urbano de São Vicente, o túnel que passou a parque de estacionamento na Ponta do Sol, o aterro na baía do Funchal, a ausência de planeamento, a falta de dinheiro para pagar dívidas, o fim do ciclo que teve tanto de bom como parece que vai acabar com tanto de mau. No meio deste filme que começava a pender para o drama, o guião revela-nos uma tragédia grega no sentido literal da expressão. Não só não fomos capazes de criar (e distribuir) riqueza, como estamos completamente lisos, tesos, sem cheta. E ainda falamos de alto. Falamos não! neste momento fala mais alto quem mais devia estar calado. E quieto. É que o tempo não é para brincadeiras. É muito sério e vai ser pior. Estou convencido que vai ser pior, sem querer ser fatalista. Deixem passar esta linda brincadeira das jantaradas com música e megafones e vamos ver onde vai estar aquela alegria toda. Quando pagarmos mais IVA, quando recebermos menos ordenado, quando pagarmos mais pela luz, a água e o autocarro e os combustíveis e o pão, aí é que vamos ver como a 'porca torce o rabo'. Espero, sinceramente, que seja eu e todos os indignados desta Região que sejamos os tolos que marcham ao contrário. Mas temo que não. Que um dia, talvez não muito distante, alguém de bom senso vá dar razão aos que agora se anunciam envergonhados pelo estado a que as contas da Madeira chegaram. Que reconheçam razão aos que, amanhã à tarde, assumirem o seu direito à indignação na manifestação silenciosa marcada para o Funchal. Em apenas uma semana desabou-nos o mundo em cima! Descobriu-se o buraco, que muitos suspeitavam. E agora, atrapalhado, o presidente chama-lhe um buraquinho, uma coisinha de nada. Minimiza o escândalo. O secretário tenta por uma tampa no buraco. São 5,8 mil milhões de dívida e não se fala mais disso! E não diz como a vamos pagar, em quanto tempo, com que recursos e sacrifícios. Mais grave foi o presidente gritar para Lisboa: tratem da vossa dívida que nós tratamos da nossa! E ontem, ao dizer: "Dêem-nos a independência". Que infelizes declarações para quem ainda há poucos meses andou de mão estendida e agora se permite estender-se ao comprido com frases ridículas que nos marcam a todos. Enquanto aqui se minimiza a dívida, lá fora amplia-se a má publicidade. Foi o título que circulou por todo o mundo que transformou a 'Pérola do Atlântico' na 'Ilha Desonesta'. Foi o humilhante puxão de orelhas que nos deu a 'troika', o Banco de Portugal e o Instituto Nacional de Estatística. Foi o raspanete que nos deu o primeiro-ministro, por sinal líder do partido do presidente do Governo e, sintomaticamente, o primeiro a dizer, clarinho como água, aos madeirenses: votem em todos menos em quem criou esta situação. Passos Coelho disse-o com toda a intenção, estou convencido disso, embora não com todas as letras. Mais incisivos foram outros responsáveis nacionais. E, pior ainda, as inúmeras rábulas que se criaram, as piadas a que nos sujeitámos e as bocas que ouvimos de todo o lado. Não sei se já repararam os mais acríticos, mas, neste momento, somos o centro da chacota nacional. Chega! Entretanto, recordo apenas uma frase que me parece assustadora: "Enquanto ouvir o Alberto João gozar connosco, sempre que sentir uma forte vontade de passar férias à Madeira vou sentar-me a um canto e esperar que passe". Disse-o Manuel Serrão, um influente empresário nortenho. Fica a reflexão: quantos portugueses pensam como Manuel Serrão?