O futebol é, juntamente com o fado, uma das grandes paixões lusitanas, ocupando um lugar relevante na sociedade portuguesa. Por ele juntam-se amigos, discutem vizinhos, festejam-se vitórias e esquecem-se derrotas. É tema de congressos, título de notícias, a base de conversas de café e motivo de brigas entre familiares. Tendo, já, ultrapassado um século de vida em Portugal, o futebol é um dos pilares da construção de identidades, uma linguagem universal com um papel indiscutível na aproximação entre os povos e um elemento da construção de comunidades de pertença e de factores de diferenciação identitária. Nunca existiu no país uma actividade que, pela sua universalidade e popularidade, ocupasse um lugar tão central na sociabilidade como o futebol. Mais do que qualquer outra actividade humana o desporto sempre teve uma grande capacidade para estabelecer a festa quer local ou regional quer nacional ou mundial, constituindo um elemento fundamental, um espelho da sociedade em todos os seus aspectos. Mahatma Ghandi afirmava que conhecíamos uma nação pela forma como ela tratava os seus animais. Em Portugal, e dada a capacidade de manifestar os valores, a lógica, as crises, as contradições e o funcionamento da sociedade atrevemo-nos a afirmar que através da análise do futebol praticado somos capazes de conhecer a nação. E hoje, no rescaldo de mais um clássico, resta-nos aferir e analisar a forma como ontem o futebol foi jogado dentro e fora do rectângulo de jogo. Devemos pensar no caminho que esta actividade, e por conseguinte a própria sociedade, está a tomar. Já dizia o outro que prognósticos eram só no fim do jogo. O jogo terminou e, como tal, é altura de pensarmos e agirmos no sentido de regressarmos aos valores e à missão que fizeram surgir o desporto. Ainda vamos a tempo. Ainda estamos na 23.ª hora.

Andreia Micaela Nascimento, Directora de Com. AAUMa